Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

E amanhã (pelo menos... porque a coisa pode demorar um poucochinho a resolver-se) há mais!!!

Após quase 10 (DEZ!!!) horas de jogo, eis o que (não) se pode ver no scoreboard: N Mahut (FRA) vs [23] J Isner (USA) - To Finish Thursday 46 63 76(7) 67(3) 59-59
Não, não é gralha. Apesar do mecanismo do marcador parecer ter desisitido aos 44-44, Mahut e Isner não concluiram ainda o jogo mais longo da história do ténis. Neste momento, os jogadores estão empatados a 59 (cinquenta e nove!!!) jogos na quinta e decisiva partida do encontro referente à 1ª ronada da edição deste ano do Torneio Wimbledon. Mesmo que houvesse comentários a fazer (mas a verdade é que estou sem palavras...), é mais prudente esperar pelo fim do duelo. Talvez amanhã (já não digo nada!) seja possível fazer um balanço desta épica batalha entre dois extraordinários servidores e sobretudo dois incríveis batalhadores!!!
Viva o Ténis! Viva Wimbledon!!!

Quarta-feira, 16 de Junho de 2010

Citroën Montemor Ladies Open: uma edição histórica!

















Para falar verdade, todas as edições do Ladies Open de Montemor são históricas, pois a cada mês de Junho sucede uma espécie de milagre no clube local. Com efeito, o CTMN consegue pôr de pé a cada ano que passa e com uma incrível regularidade sem falhas aquele que é provavelmente um dos torneios de 10 000 dólares mais simpáticos do circuito feminino da International Tennis Federation. No que toca a organização de eventos competitivos do ténis alentejano o Ladies Open é sem dúvida a jóia da coroa. Desde há alguns anos, o torneio é ajudado na sua organização por um sponsor que mais uma vez dá provas do seu grande apreço pela nossa modalidade.
Como é costume, dirigi-me a Montemor para assistir àquilo que me foi possível observar. Mais uma vez constatei a excelência da organização da prova e, no sábado passado (segundo dia do qualy), pude presenciar um acontecimento. Ou, como me dizia Cristina Reis, directora do torneio e a quem o ténis alentejano tanto deve : «É o concretizar de um sonho!». De facto, e pela primeira vez, uma tenista alentejana, a ainda muito jovem Ana Filipa Santos (este ano a representar o clube da sua terra, Santo André, após ter sido durante várias épocas atleta do CTMN), participou no torneio e, depois de derrotar em três disputados sets a espanhola Amaia Ormazabal-Oregui, encontrou na 2ª ronda a portuguesa Claudia Cianci. Já não via a Pipa (na primeira das excelentes fotos de José Rasquinha que, com a devida vénia, retirei do blog do CTMN, a fazer um excelente smash!) a jogar desde há largos meses e ela voltou a impressionar-me pelas suas invulgares aptidões naturais e técnicas. Não há no ténis feminino português muitas jogadoras com idêntico potencial. No entanto, julgo que, do ponto de vista táctico e especialmente da abordagem do jogo, há ainda muito trabalho a fazer. Só assim se explica o modo quase incompreensível como não venceu um jogo face a uma adversária que, apesar de lhe ser claramente inferior, nunca se desligou do jogo, vencendo por isso justamente, graças à sua maior concentração e garra.
Problema quase semelhante parece-me existir em Beatriz Santos. Tecnicamente apuradíssima, a jovem tenista portuguesa parece que se esqueceu de que, numa prova (ainda para mais num ITF), vencer é o objectivo principal. Ora, a germânica Insa Wickmann não mostrou melhores pancadas do que a Beatriz (longe disso...) mas, nos pontos decisivos, fez falar a sua maior experiência competitiva. E isto apesar do ténis da Beatriz (2ª foto) ser magnífico, acerca disso não tenho nenhumas dúvidas.
Para terminar esta agradável tarde de sábado, uma referência para a tranquila inteligência e excelente toque de bola (é de família...) de Mafalda Lhorca. Sem apresentar nenhum golpe especialmente vistoso, Mafalda (3ª foto) soube abordar um jogo frente a uma adversária, a mexicana Cristina Melgarejo, menos difícil do que parecia (tal a velocidade e o peso das suas pancadas), actuando de um modo bastante pragmático. Venceu assim o encontro com uma descontracção digna de realce e fazendo uso de um óptimo domínio do slice e do amortie. E como no ténis o que conta é falhar menos do que o adversário...
Voltei a Montemor esta manhã e apenas pude também assistir a um interessante encontro entre a veterana sérvia Bojovana Borovnica (4ª foto) e a jovem francesa Alice Tisset (5ª foto). Venceu esta última, apresentando um ténis que me fez lembrar, pela sua inteligência e garra, a antiga campeã espanhola Arantxa Sanchez. Ou me engano muito ou ainda iremos ouvir falar de Alice... Quanto a Borovnica, nem o facto de se apresentar (foi o que me pareceu) adoentada a impediu de apresentar um tipo jogo clássico que, caso estivesse bem fisicamente, poderia ser bem mais eficaz. Justificou assim cabalmente o wild card que a organização lhe concedeu.
Se puder, ainda voltarei a Montemor durante esta semana...

Sexta-feira, 11 de Junho de 2010

Sílvio Lima ou para acabar com o lado das vantagens (dos esquerdinos)...












Em 1937 (!!!), o filósofo conimbricense Sílvio Lima (não, não é da minha família, esclareço desde já) escreveu o seguinte: «O jogo é uma actividade livre. O jogador joga porque quer, quando quer, onde quer, como quer e até quanto quer. Começa e interrompe o jogo ao sabor pleno da sua vontade. Aceita ou repele as normas do jogo, claro, o jogo colectivo não se realiza sem o respeito da disciplina, sem a fidelidade ao 'fair-pay': mas aqui a obediência às leis do jogo é consentida, é voluntária, é uma autolimitação dentro da própria liberdade.


O tenista sabe que para jogar tem que respeitar certas regras; se não quer respeitá-las, não joga (quem o obriga a tal?); se joga, deve respeitar as regras do jogo, por isso que livremente o escolheu e o aceitou. Mais. Pode, mediante o acordo dos outros jogadores, 'revolucionar' as próprias regras. As regras do jogo não são dogmas traçados para a eternidade, portanto, supra-históricas e supra-espaciais, mas sim disposições convencionais, sujeitas às flutuações ou viragens da opinião pública. São leis, por definição alteráveis, reformáveis, revogáveis» (SÍLVIO LIMA, “Arte e jogo, jogo e arte” [1937], Obras Completas, Vol. II, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. 1003).




Estas palavras não ganharam uma única ruga com o passar das décadas. Pelo menos, para mim. De facto, há aqui duas teses essenciais. Em primeiro lugar, quem joga, quem compete, aceita as regras do jogo e da competição. Claro que, muitas vezes, o jogador desconhece as leis do seu desporto (ninguém é perfeito nestas e em todas as coisas), mas tem a obrigação de as respeitar se livremente aceitou jogar. Em segundo lugar, as regras não são imutáveis. É óbvio que, durante a competição, elas são fixas. Mas há ocasiões em que os jogadores (quase sempre por intermédio das federações ou outras entidades que supervisionam os jogos) podem, livremente, decidir mudar as regras.




No ténis, tem havido algumas (poucas...) mudanças ao longo dos tempos. Para falar nalgumas modificações mais recentes, podia lembrar a introdução do tie-break (anos 70 do século passado), no intervalo entre os sets e na sua supressão no primeiro jogo de cada partida (há menos tempo...) e no mais recente aparecimento do olho de falcão. O que é curioso é que estas três alterações decorrem de preocupações de ordem comercial (o ténis profissional é cada vez mais um espectáculo altamente produtivo...) do que de tentativas para melhorar o jogo em si mesmo. Têm surgido também algumas propostas que colheram menos aceitação. Por exemplo, há alguns anos John McEnroe decidiu pôr em Itálicomarcha um movimento que visava recuperar o estilo atacante do serve-and-volley. Quem me conhece sabe de certeza que não haverá muita gente mais sensível a esta preocupação do que eu. Mas a verdade é que o ténis sempre conviveu com variados estilos de jogo e os que acham (como eu!) que o verdadeiro ténis se joga entre a linha de serviço e a rede terão sempre grande dificuldade em convencer os jogadores do fundo do court da justeza dos seus argumentos. É preciso ganhar esta guerra através da técnica e da táctica (até eventualmente aperfeiçoando o material) e não mudando as regras.
Outra discussão que, por vezes, surge é a abolição do let (ou net?) após a pancada de serviço. Confesso que esse debate é para mim uma discussão tão inútil como algumas querelas metafísicas da Idade Média. Será que alguma vez houve um servidor que teve de repetir a pancada de saída mais do que (vá lá...) 4 vezes por causa do let? Não acredito. Por isso, esta é uma discussão pouco produtiva e interessante. Leave the let alone!!!
Vou tratar por isso de outro assunto. Sabem de quantos break-points dispôs Soderling na final de Roland Garros disputada no passado domingo contra Nadal? Oito! E quantos breaks fez o sueco dextro? Zero.
E em 2007, quantos break-points salvou Rafa na final de Paris em que sofreu maior réplica de Federer? Dezasseis em dezassete possíveis!!!
Ora, quase todos os break-points jogados pelo espanhol e por todos os esquerdinos - que sabem e souberam usar com proveito o serviço cruzado contra os direitos - como Rod Laver, Tony Roche, Roscoe Tanner, Jimmy Connors, Guillermo Vilas, John McEnroe (nas fotos, sem se perceber completamente de que lado está a servir!!! Aceito palpites!), Andrès Gomez, Thomas Muster, Goran Ivanisevic, Nuno Marques, Marcelo Rios, Jurgen Melzer, por exemplo, são jogados no chamado lado das vantagens. Os únicos break-points defendidos do lado direito são aqueles que se jogam a 15-40. Todos os outros (0-40, 30-40, vantagem da resposta) começam do lado esquerdo, o que constitui uma enorme vantagem para os esquerdinos. Já estou a ver os defensores de género a sair do armário (salvo seja...) e a bramir que os canhotos são milenarmente prejudicados pela maioria dos seus concidadãos (quase sempre dextros), desde as carteiras nas salas de aulas até ao formato das tesouras,... blá, blá, blá.
A verdade é que, no ténis, os esquerdinos têm grandes vantagens, a começar pelo lado das ditas. Ora, de onde vem o lado das vantagens? De uma regra que, como todas as outras é, dizia Sílvio Lima, por definição alterável, reformável, revogável. Por que motivo, todos os pontos iniciais dos jogos (tie-break, inclusivé) têm de começar pelo lado direito?!! Essa situação não poderia ser alterada de dois em dois jogos?
Ou ainda: por que razão não é dada a possibilidade de, pelo menos em algumas vezes (como de resto sucede no algo bizarro ponto de ouro, já utilizado nas provas de pares do ATP Tour), o jogador escolher de que lado responde nos pontos mais importantes?!! Por exemplo, ao terceiro break-point o jogador da resposta decidia de que lado se disputava esse ponto.
Terá isto algum sentido ou estarei eu a ser vítima de uma crónica esquerdinofobia?



Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

Ainda sobre a esquerda a uma mão ou recordações de um mágico!!!






























Sim, claro que não se deve impor a nenhum jovem tenista o ensino da esquerda a uma mão. Mas o inverso também é verdade. Além disso, será possível, segurando a raquete com as duas mãos, ter uma esquerda tão versátil como a do marroquino Hicham Arazi, um dos mais fabulosos jogadores que alguma vez vi jogar (cf. post sobre Safin)?
Arazi disfarçava até ao último milésimo segundo se desferia uma esquerda cheia de lift ou se, através de uma quase imperceptível mudança de pega, fazia um slice demolidor (ora profundo, ora com a bola a cair logo a seguir à rede, num dos seus extraordinários amorties...). Bem, pelo menos na minha opinião, essa variedade não é possível se batermos a esquerda a duas mãos. Veja-se o caso do austríaco Melzer que dá um pequeno salto quando procura fazer um drop-shot com a sua backhand a duas mãos de esquerdino. Para além de me parecer algo ridículo, creio que perde um tempo precioso, situação que poderá ser fatal, caso o adversário chegue a tempo ao amortie, por exemplo.
Para os menos convencidos, deliciem-se com a classe do infelizmente já quase esquecido Arazi!!!














Terça-feira, 8 de Junho de 2010

Notas sobre Roland Garros: apologia da esquerda a uma mão...















Talvez pareça uma miserável provocação começar estas notas sobre a última edição de Roland Garros com uma apologia da esquerda a uma mão. Já pressinto os nadalianos a ranger os dentes e a dizer: «Agora, este tipo foi longe de mais!». Por isso, digo desde já: Rafa mereceu amplamente, com uma nitidez semelhante à de há dois anos, vencer o French. Exibiu superioridade incontestável sobre todos os oponentes (embora não tenha defrontado Federer e, se isso tivesse sucedido num dia quente como a sexta ou o sábado passados, julgo que teria cedido pelo menos um set...), sobretudo na meia-final e na final que se tornaram jogos quase chatos.
Dito isto (e só Deus sabe como isto me custou a sair do teclado...), qual o jogador que, na minha opinião, mais perto esteve de molestar Nadal? Sem dúvida, Nicolas Almagro que, depois da boa exibição efectuada em Madrid, voltou a mostrar que, num dia menos feliz do maiorquino, pode incomodar aquele que, não tenho dúvidas nenhumas sobre isto, é o melhor jogador de clay courts de todos os tempos. Mas a verdade é que El gordo está melhor do que nunca e a sua backhand é das mais estéticas do circuito (por exemplo, acho que o Wawrinka roda excessivamente os ombros após o impacte da raqueta na bola). Considero um bocado irritante aquela mania do Almagro festejar cada ponto como se fosse um match-point, mas tecnicamente é magnífico.

Se o Astérix fosse vivo, diria certamente: Ils sont fous ces ... Gaulois! Pelo menos os Gauleses que organizam o torneio mais importante da temporada em terra batida. Então, não foram obrigar o francês com a melhor esquerda a uma mão a ter de jogar apenas um dia após a difícil vitória sobre Verdasco no Open de ... Nice? Bela recompensa para um jogador que anseia voltar ao lugar cimeiro onde já esteve... Não admira, por isso, que Gasquet não tenha aguentado o ritmo, a pressão e a dureza de uma primeira ronda de Roland Garros e deste modo tenha cedido numa fase tão precoce do seu Grand Slam. Ou, se calhar, não são tão loucos assim, estes Gauleses, e terão preferido que Richard preparasse como deve ser a temporada em relva onde, a avaliar pelas exibições de hoje e sobretudo de ontem em Queens, talvez tenha mais hipóteses de sucesso. De qualquer modo, Gasquet - apesar de todas as peripécias da sua carreira (lembro que aos doze anos ele já era capa na Tennis Magazine), incluindo a suspensão (injusta?) por doping - é detentor de uma fabulosa esquerda quer batida, quer em slice. Ou me engano muito ou irá dar que falar em Wimbledon...
Por fim, Schiavone rompeu com a quase insuportável monotonia do ténis feminino actual, muito por força da sua extraordinária ... esquerda a uma mão!!! Pode não ser a figura mais elegante nos courts (e sobretudo fora deles...), mas o seu jogo tem uma versatilidade talvez só comparável a uma das grandes decepções do torneio parisiense, a belga Justine Hénin (com a sua grande esquerda a ... uma mão!).
Sim, falta falar de Federer e da sua extraordinária backhand (que, mesmo assim, é o seu golpe menos forte!), mas para escrever alguma coisa sobre o suiço talvez seja preferível esperar mais três semanas. É o que espero, pelo menos!