Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

Notas da FED CUP (3). Caroline Wozniacki, campeã do futuro?

Concluo estas breves notas sobre a Fed Cup, dedicando a minha atenção à maior figura que esteve presente nesta competição que, repito, constituiu um verdadeiro acontecimento do ténis português. Entre outros motivos já referidos, porque também deu a oportunidade ao público que se deslocou ao Jamor de observar uma das melhores tenistas da actualidade e que, pelo menos para mim, foi a grande revelação da época transacta.
Com efeito, a jovem (fará vinte anos em Julho) dinamarquesa Caroline Wozniacki, apesar de não ter vencido nenhum torneio do WTA Tour, atingiu 8 finais (MEMPHIS, PONTE VEDRA BEACH, CHARLESTON, MADRID, EASTBOURNE, BASTAD, NEW HAVEN,US OPEN!!!), proeza que lhe possibilitou o acesso ao Masters (onde desistiu por lesão nas 1/2 finais frente a Serena Williams) com o surpreendente ranking nº 4. Foi por isso algo estranho vê-la defrontar uma excelente Anastasija Sevastova (Letónia) num court com uma escassa moldura humana, dado que se tratou de um encontro disputado à hora do jantar de sexta-feira. Devo dizer o ténis de Sevastova me pareceu mais estético (com uma enorme versatilidade táctica e grande toque de bola) do que o de Caroline e, no início, quase que me encontrei a torcer pela jogadora menos cotada. Contudo, depois de algum equilíbrio no início dos dois sets, a dinamarquesa começou, quase sem se dar por isso, a elevar o ritmo das suas pancadas e a fazê-lo com uma consistência impressionante, obrigando a sua adversária a perder pontos sucessivamente. Será este o destino do ténis feminino no futuro? É bem possível que sim: jogadoras com um ténis completo do fundo do campo (e Caroline está com uma forehand muito mais eficaz, embora esta seja a sua pancada menos forte), com um óptimo serviço - aspecto a que devem dar atenção as nossas jovens jogadoras! - e com uma baixíssima percentagem de erros não forçados, especialmente nos pontos mais determinantes do encontro. E este é o ponto que distingue quem joga um ténis vistoso, como Sevastova (que, ainda assim, aposto que irá subir na classificação, visto que tem jogo para mais do que seu actual e melhor de sempre 73º lugar), e as campeãs, como Wosniacki que, mais cedo ou mais tarde, estou convicto que - caso não haja lesões ou outro tipo de crises em que o ténis feminino é fértil (veja-se o caso de Ivanovic) - vencerá um torneio do Grand Slam. É que estas últimas valorizam cada ponto como se fosse o último das suas vidas, ao passo que as primeiras cedem à tentação de improvisar nos grandes momentos. Às vezes, pode resultar. Mas só às vezes. Ora, este é um dos aspectos em que, do meu ponto de vista, mais falha a formação do ténis português. Damos demasiada importância a inúmeros detalhes técnicos, esquecendo que o ténis é um jogo em que vence quem comete menos erros. Estou com isto a preconizar um ténis exclusivamente defensivo? Pelo contrário. O ténis do futuro será, quanto a mim, um jogo de ataque controlado, ou seja, pancadas batidas cada vez com mais força mas, ao mesmo tempo, com maior margem de segurança. Se as coisas vierem a acontecer deste modo, é bem possível que eu tenha observado e fotografado (apesar da deficiente qualidade do fotógrafo...) em Lisboa uma próxima número um mundial. A ver vamos!





Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Notas da FED CUP (2). Michelle Brito ou o tempo de mudar de rumo



É bem possível que o Ténis feminino português nunca tenha estado num plano tão elevado como hoje. Também por isso se justificou a aposta da Federação na organização em tempo record da Fed Cup em Lisboa. Aparentemente, os resultados da nossa selecção não foram tão positivos como seria de esperar. Acredito que sim. Jogar em casa nem sempre constitui uma vantagem e a verdade é que me pareceu, no único dia da prova a que pude assistir, que as nossas jogadoras acusaram de certo modo a pressão.
Foi o caso, quanto a mim, de Michelle Brito que terá vivido o sentimento paradoxal de querer mostrar em Lisboa o nível que já exibiu noutros palcos e, ao mesmo tempo, superar a dura prova de ser, com 17 anos apenas, a principal figura da equipa de Portugal. Já foram feitas algumas críticas em relação ao estilo de jogo de Michelle e muitos referiram as notórias dificuldades que a melhor tenista portuguesa de sempre (alguém tem dúvidas que é assim que ela tem de ser considerada?!) tem vivido nos últimos meses. Subscrevo, no essencial, a inteligente análise feita por João Lagos no Jornal do Ténis/Record. Por exemplo, é-me difícil perceber como uma jogadora que, desde dos nove anos de idade, está a ser preparada para jogar profissionalmente ténis tenha tantas limitações técnicas que, inevitavelmente, se repercutem num reduzido leque de opções tácticas. Exemplos? Repare-se que Michelle não consegue extrair qualquer vantagem dos seus jogos de serviço. Não me refiro apenas ao que já parece ser o trauma das duplas faltas que, em meu modesto entender, é mais consequência do que causa. Falo sobretudo do facto de Michelle começar os pontos em que serve com uma espécie de resposta à resposta da adversária. Que quero dizer eu com isto? É que a nossa talentosa jogadora parece abdicar de todas as vantagens que decorrem do facto de ser ela a decidir como se vai começar cada ponto em que serve. Michelle serve como se isso fosse um transtorno e não uma arma. Ora, a verdade é que isto é assim, na minha opinião, porque ela, mais do que ter um saque inconstante, é muito pouco versátil na direcção que escolhe, na velocidade que imprime e até nos efeitos com que executa o golpe de saída. Por isso, e talvez porque o seu serviço não tenha a qualidade exigível a jogadora do seu nível, Michelle aposta tudo nas pancadas de fundo que realmente são assombrosas (embora nem sempre com elas a nossa jogadora abra os ângulos como seria preciso) o que torna o seu jogo previsível e, portanto, mais fácil de contrariar. Em suma, mais do que a também evidente falta de hábitos competitivos, julgo que um dos limites desta tenista com extraordinário potencial tem a ver com própria abordagem técnico-táctica do jogo. Ora, isto faz com que o desacerto de Michelle em Lisboa não seja, do meu ponto de vista, fruto apenas de uma crise mais ou menos passageira de confiança. Estes problemas já me pareciam relativamente patentes nos jogos que (tele)vi da nossa menina prodígio em Roland Garros (com Rezai) e em Wimbledon (com Schiavone). Agora, depois de finalmente a ver jogar ao vivo, penso muito sinceramente que é a altura de mudar de rumo, antes que seja tarde de mais...
E eu acho que seria quase criminoso para ela e para o ténis que as qualidades inegáveis que Michelle apresenta não fossem plenamente desenvolvidas.

Domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Notas da FED CUP (1). Patty Schnyder, uma jogadora diferente!

Desloquei-me, na sexta feira (penúltimo dia do evento), ao novo CAR do Jamor para assistir à jornada desse dia da Grupo da Zona Euro-Africana da Federation Cup, prova que corresponde à Taça Davis no sector feminino. Os motivos de interesse eram múltiplos e a deslocação valeu bem a pena. Boa organização, excelentes jogos e a magnífica oportunidade de estar bem perto de grandes figuras do ténis mundial. A pequenez das instalações se, por um lado, dificultou a vida a quem queria ver diferentes jogos, pois apenas dois dos quatro campos utilizados para competição tinham bancadas, por outro, permitiu que os espectadores estivessem muito próximos das jogadoras, situação que, por exemplo, no Estoril Open, não é (compreensivelmente) sempre possível.
Como escrevi há algumas semanas atrás, um dos atractivos desta Fed Cup prendia-se com a presença daquela que eu considero uma das mais talentosas tenistas da última década e meia, a suiça Patty Schnyder. Actualmente, nº 44 da classificação WTA, a esquerdina chegou a ser a sétima jogadora mundial (em 2005), tendo vencido onze títulos do WTA Tour. Em 2004, atingiu as meias finais do Open da Austrália e ao longo da sua extensa carreira derrotou jogadoras como Martina Hingis, Lindsay Davenport, Serena Williams, Arantxa Sanchez Vicario, Steffi Graf, Jelena Janković, Ana Ivanović, Jennifer Capriati, Kim Clijsters, Justine Henin, Amelie Mauresmo e Maria Sharapova, sendo que todas elas atingiram o primeiro lugar do ranking mundial.
Mas, para além disso (que já é muito...), Schnyder tem um tipo de jogo bastante invulgar, revelando um toque de bola e uma versatilidade (por vezes, talvez excessiva) que, do meu ponto de vista, fazem dela uma das jogadoras mais interessantes do ténis contemporâneo. Ainda hoje li, na Tennis Magazine que acaba de sair, Amélie Mauresmo a dizer que jogar com Patty sempre foi uma grande "dor de cabeça" para si (embora para a francesa nunca tenha sido difícil arranjar "complexos" por tudo e por nada...), apesar de ter um saldo positivo com a suiça, que alia um óptimo serviço e uma grande "forehand" de esquerdina a uma habilidade e imaginação de jogo invulgares.
Patty tem uma biografia bastante atribulada (o que explica, porventura, alguns hiatos na sua carreira), mas a verdade é que o seu ténis talvez seja mais estético do que propriamente eficaz, mas para quem não gosta de ver (é o meu caso...)duas jogadoras que nunca saem do fundo do "court" e batem todas as bolas da mesma maneira, presenciar um jogo de Schnyder é quase uma "benção divina"...
Pois bem, Patty passou por Lisboa pela segunda vez (já cá tinha estado numa anterior edição da "Fed Cup"...), tendo derrotado a "nossa" Michelle em dois sets rápidos (não vi o jogo, mas, por motivos que serão tema de um outro post, o resultado não me surpreende!). Infelizmente, no dia de sexta-feira, o jogo Suiça-Croácia foi relegado para o campo 2 (um dos que não tinha bancadas...), pelo que acabei por não assistir ao primeiro singular que Schnyder, tendo visto - ou melhor, entrevisto, pois entre a bancada e o court 2 desenrolava-se um aborrecido jogo entre as duplas representativas das selecções da Bulgária e da Eslovénia - apenas o começo do par que, lamentavelmente, foi interrompido por lesão de uma tenista croata. Nesse curtíssimo período, pude confirmar ao vivo a excelência do estilo de Patty (boa jogadora de pares...) e, quando o jogo terminou prematuramente, não hesitei em tirar-lhe uma foto (aquela que ilustra este post) como verdadeiro fan que sou!
Voltarei em breve à Fed Cup para abordar neste blog outros tópicos.

Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

O que se passa com Gil? Provavelmente, NADA!



Sou um grande admirador de Frederico Gil que, num certo sentido, representa quase tudo o que se opõe às características mais censuráveis dos portugueses. Trabalhador, ambicioso, determinado, organizado e, acima de tudo, extremamente profissional, o nosso melhor tenista de sempre parece tudo menos tuga. É habitual dizer-se que Gil é uma espécie de clone do seu mentor e antigo treinador, Cunha e Silva. Sem conhecer pessoalmente nenhum deles (e, portanto, correndo o risco de apresentar uma perspectiva demasiado pessoal e sem o necessário fundamento), julgo que há diferenças claras entre ambos. Do meu ponto de vista de mero espectador, penso que o João revelava um potencial técnico superior ao Frederico e, por isso mesmo, possuia uma melhor qualidade táctica, decorrente da maior versatilidade do seu ténis. Perguntar-se-á, com pertinência: se assim fosse, como explicar a notória diferença de resultados obtidos por um e outro? A razão é simples, quanto a mim. Faltou ao Cunha-jogador o Cunha-treinador, especialmente no princípio da sua carreira internacional como tenista, pois, nos últimos anos, essa lacuna foi, de algum modo, sendo menos notória. É que, se não me engano, nos últimos tempos de jogador, Cunha passou talvez a ser o seu principal treinador e, aspecto decisivo, o inteligente planificador do seu programa competitivo.
Este último ponto revela-se extremamente significativo para compreender o extraordinário início de época de Frederico em 2009, quando apostou quase tudo nos primeiros torneios da temporada, cometendo até a aparente loucura de ir jogar Joanesburgo (África do Sul, altitude elevada, hardcourt) e depois Costa de Sauipe (Brasil, terra batida) em duas semanas consecutivas. Digamos que essa foi uma janela de oportunidades de um jogador que, recorde-se, não jogou no início do ano passado as Australian Series e que, ao alcançar em ambos torneios as 1/2 finais, deu magnífica continuidade aos óptimos resultados conseguidos no Challenger Tour. Desde então, Frederico só esporadicamente voltou aos torneios de menor cotação. Não espanta, por isso, que tenham diminuído as suas vitórias, pois passou a defrontar com maior regularidade jogadores de nível mais elevado. Ora, o nosso jogador não é um dos mais talentosos tenistas do ATP Tour. Longe disso. Frederico assenta o seu jogo numa consistência impressionante, numa grande capacidade física e, mais recentemente, numa cada vez mais poderosa forehand, sobretudo quando a consegue golpear bem dentro do campo. No entanto, e refiro-me ao nível dos jogadores que nesta altura habitualmente enfrenta, ele não me parece muito rápido e, sobretudo, não é um jogador com a habilidade suficiente para contrariar sistematicamente os craques do Top 50, por exemplo, que, com alguma facilidade, o colocam em sérios problemas, quando variam um pouco mais o jogo. Claro que, há uns meses, nenhum jornal se referiu a estas debilidades e, no entanto, para um olhar mais atento elas eram já então notórias, o que, de resto, só tornou as suas surpreendentes vitórias numa proeza ainda mais valiosa.
Mas e agora? Tem sido a época de 2010 um ano decepcionante para Gil?
Antes de mais, julgo que é demasiado cedo para se fazer um balanço seguro. A começar, duas derrotas quase normais em piso rápido com Starace (a quem, ainda assim, Gil vencera na final do challenger de Nápoles em Setembro passado) e um jogo, ao que parece, claramente falhado com Ferrer, embora, para ser sincero, eu ache que só num dia incrivelmente mau do espanhol (que tem um jogo com características semelhantes ao do português, embora com mais consistência e outras capacidades atléticas) o Frederico o possa incomodar. Mas há que não esquecer também uma boa vitória sobre Taylor Dent no qualy de Sidney. Lá está: parece-me que em hardcourts Gil consegue, por vezes, contrariar bastante bem os servidores cannonballs. Para mim, uma das melhores vitórias de sempre que o português conseguiu foi precisamente em Março passado no Masters de Miami frente a Karlovic. Enfim, esperemos até pelo menos ao Estoril Open para avaliar se esta temporada estará, ou não, ao nível da precedente.
Dito isto, poder-se-á pensar que não acredito firmemente na progressão do nosso Frederico. Considero bastante difícil que chegue aos trinta melhores do mundo pelas razões que já aduzi, mas, se continuar a planear o seu programa competitivo da forma inteligente como o tem feito até agora, pode ainda vir a dar muitas alegrias ao ténis português. Quem sabe já na próxima semana no Brasil? Porém, se isso não suceder, não há motivos para os media portugueses ficarem histéricos com o que irão chamar mais uma derrota de Gil. E, aposto, vão mesmo dizer que se ele não tivesse abandonado o Oeiras Team, tudo seria diferente.
Por mim, acho que, pelo menos até agora, não se passa nada de especial com Frederico. Por mais crises que os jornalistas (alguns...) inventem.