
Um famoso escritor português afirmou uma vez que somos um povo de pobres com mentalidade de ricos. Julgo que tinha razão. Temos frequentemente a ideia de que Portugal está no centro do mundo e, por isso, vivemos obcecados com a ideia de que os outros, os que vivem lá fora, ou nos invejam ou estão permanentemente a tentar prejudicar-nos. Talvez as coisas não sejam bem assim, mas pelo menos parecem.
Um bom exemplo desta mentalidade a que poderíamos chamar para simplificar tuga verifica-se no ténis. Vivemos obcecados com a ideia de que, por não termos um jogador de classe mundial, alguma coisa está a falhar. Ora, eu penso que as coisas não são bem assim. Se atendermos ao escassíssimo número de praticantes federados (a Federação fala de muitos outros tenistas não federados, mas sinceramente nunca percebi como é que essa contabilidade se faz...), nós temos um (pequeno) lote de jogadores de altíssima qualidade e que, na verdade, não são um verdadeiro reflexo do desenvolvimento do ténis português. De facto, é possível que ainda durante este ano venhamos a ter dois jogadores no Top 100, situação absolutamente inédita.
Ora, se quisermos ser rigorosos, nem Frederico Gil, nem Rui Machado são dos tenistas mais talentosos que têm aparecido nos últimos vinte anos em Portugal. Mesmo entre os que estão ainda em actividade (por exemplo, entre os que jogaram na edição deste ano do Estoril Open), penso que Leonardo Tavares, Michelle Larcher de Brito, Pedro Sousa e sobretudo Gastão Elias têm um potencial tenístico bastante superior. Sei que esta opinião é discutível, mas julgo que há vários e bons motivos para a sustentar. Onde reside então a diferença entre Rui e Frederico face ao típico jogador luso? Para mim, no facto de não terem uma mentalidade tuga. Ou seja, não estão convencidos que se encontram no centro do mundo. Estão no circuito como milhares de outros jogadores de todos os cantos do planeta e procuram destacar-se através do trabalho, da dedicação, do profissionalismo. Mérito indiscutível do seu treinador (Cunha e Silva)? Sem dúvida. Mas ambos revelam especialmente uma elevadíssima formação moral. Dois exemplos. Por um lado, o modo como ambos se entregaram no extraordinário encontro que disputaram na passada sexta-feira, fazendo-o sempre nos limites, mas evidenciando ao mesmo tempo um enorme respeito mútuo. Por outro, a forma como encararam as suas derrotas (Rui frente a Gil e este, na final, frente ao excelente Montanes): com evidente tristeza, mas sem desculpas. Com orgulho pelo trajecto alcançado, mas sempre determinados a evoluir no futuro que já aí vem.
Rui e Frederico podem não ter o ténis mais atractivo do circuito (e eu acho que realmente não têm...), mas merecem todos os elogios dos seus compatriotas. São portugueses, mas não são tugas. Por isso, acho que foram as grandes figuras do mais memorável Estoril Open de sempre.

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