
Sou um grande admirador de Frederico Gil que, num certo sentido, representa quase tudo o que se opõe às características mais censuráveis dos portugueses. Trabalhador, ambicioso, determinado, organizado e, acima de tudo, extremamente profissional, o nosso melhor tenista de sempre parece tudo menos tuga. É habitual dizer-se que Gil é uma espécie de clone do seu mentor e antigo treinador, Cunha e Silva. Sem conhecer pessoalmente nenhum deles (e, portanto, correndo o risco de apresentar uma perspectiva demasiado pessoal e sem o necessário fundamento), julgo que há diferenças claras entre ambos. Do meu ponto de vista de mero espectador, penso que o João revelava um potencial técnico superior ao Frederico e, por isso mesmo, possuia uma melhor qualidade táctica, decorrente da maior versatilidade do seu ténis. Perguntar-se-á, com pertinência: se assim fosse, como explicar a notória diferença de resultados obtidos por um e outro? A razão é simples, quanto a mim. Faltou ao Cunha-jogador o Cunha-treinador, especialmente no princípio da sua carreira internacional como tenista, pois, nos últimos anos, essa lacuna foi, de algum modo, sendo menos notória. É que, se não me engano, nos últimos tempos de jogador, Cunha passou talvez a ser o seu principal treinador e, aspecto decisivo, o inteligente planificador do seu programa competitivo.Este último ponto revela-se extremamente significativo para compreender o extraordinário início de época de Frederico em 2009, quando apostou quase tudo nos primeiros torneios da temporada, cometendo até a aparente loucura de ir jogar Joanesburgo (África do Sul, altitude elevada, hardcourt) e depois Costa de Sauipe (Brasil, terra batida) em duas semanas consecutivas. Digamos que essa foi uma janela de oportunidades de um jogador que, recorde-se, não jogou no início do ano passado as Australian Series e que, ao alcançar em ambos torneios as 1/2 finais, deu magnífica continuidade aos óptimos resultados conseguidos no Challenger Tour. Desde então, Frederico só esporadicamente voltou aos torneios de menor cotação. Não espanta, por isso, que tenham diminuído as suas vitórias, pois passou a defrontar com maior regularidade jogadores de nível mais elevado. Ora, o nosso jogador não é um dos mais talentosos tenistas do ATP Tour. Longe disso. Frederico assenta o seu jogo numa consistência impressionante, numa grande capacidade física e, mais recentemente, numa cada vez mais poderosa forehand, sobretudo quando a consegue golpear bem dentro do campo. No entanto, e refiro-me ao nível dos jogadores que nesta altura habitualmente enfrenta, ele não me parece muito rápido e, sobretudo, não é um jogador com a habilidade suficiente para contrariar sistematicamente os craques do Top 50, por exemplo, que, com alguma facilidade, o colocam em sérios problemas, quando variam um pouco mais o jogo. Claro que, há uns meses, nenhum jornal se referiu a estas debilidades e, no entanto, para um olhar mais atento elas eram já então notórias, o que, de resto, só tornou as suas surpreendentes vitórias numa proeza ainda mais valiosa.
Mas e agora? Tem sido a época de 2010 um ano decepcionante para Gil?
Antes de mais, julgo que é demasiado cedo para se fazer um balanço seguro. A começar, duas derrotas quase normais em piso rápido com Starace (a quem, ainda assim, Gil vencera na final do challenger de Nápoles em Setembro passado) e um jogo, ao que parece, claramente falhado com Ferrer, embora, para ser sincero, eu ache que só num dia incrivelmente mau do espanhol (que tem um jogo com características semelhantes ao do português, embora com mais consistência e outras capacidades atléticas) o Frederico o possa incomodar. Mas há que não esquecer também uma boa vitória sobre Taylor Dent no qualy de Sidney. Lá está: parece-me que em hardcourts Gil consegue, por vezes, contrariar bastante bem os servidores cannonballs. Para mim, uma das melhores vitórias de sempre que o português conseguiu foi precisamente em Março passado no Masters de Miami frente a Karlovic. Enfim, esperemos até pelo menos ao Estoril Open para avaliar se esta temporada estará, ou não, ao nível da precedente.
Dito isto, poder-se-á pensar que não acredito firmemente na progressão do nosso Frederico. Considero bastante difícil que chegue aos trinta melhores do mundo pelas razões que já aduzi, mas, se continuar a planear o seu programa competitivo da forma inteligente como o tem feito até agora, pode ainda vir a dar muitas alegrias ao ténis português. Quem sabe já na próxima semana no Brasil? Porém, se isso não suceder, não há motivos para os media portugueses ficarem histéricos com o que irão chamar mais uma derrota de Gil. E, aposto, vão mesmo dizer que se ele não tivesse abandonado o Oeiras Team, tudo seria diferente.
Por mim, acho que, pelo menos até agora, não se passa nada de especial com Frederico. Por mais crises que os jornalistas (alguns...) inventem.

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