
É bem possível que o Ténis feminino português nunca tenha estado num plano tão elevado como hoje. Também por isso se justificou a aposta da Federação na organização em tempo record da Fed Cup em Lisboa. Aparentemente, os resultados da nossa selecção não foram tão positivos como seria de esperar. Acredito que sim. Jogar em casa nem sempre constitui uma vantagem e a verdade é que me pareceu, no único dia da prova a que pude assistir, que as nossas jogadoras acusaram de certo modo a pressão.
Foi o caso, quanto a mim, de Michelle Brito que terá vivido o sentimento paradoxal de querer mostrar em Lisboa o nível que já exibiu noutros palcos e, ao mesmo tempo, superar a dura prova de ser, com 17 anos apenas, a principal figura da equipa de Portugal. Já foram feitas algumas críticas em relação ao estilo de jogo de Michelle e muitos referiram as notórias dificuldades que a melhor tenista portuguesa de sempre (alguém tem dúvidas que é assim que ela tem de ser considerada?!) tem vivido nos últimos meses. Subscrevo, no essencial, a inteligente análise feita por João Lagos no Jornal do Ténis/Record. Por exemplo, é-me difícil perceber como uma jogadora que, desde dos nove anos de idade, está a ser preparada para jogar profissionalmente ténis tenha tantas limitações técnicas que, inevitavelmente, se repercutem num reduzido leque de opções tácticas. Exemplos? Repare-se que Michelle não consegue extrair qualquer vantagem dos seus jogos de serviço. Não me refiro apenas ao que já parece ser o trauma das duplas faltas que, em meu modesto entender, é mais consequência do que causa. Falo sobretudo do facto de Michelle começar os pontos em que serve com uma espécie de resposta à resposta da adversária. Que quero dizer eu com isto? É que a nossa talentosa jogadora parece abdicar de todas as vantagens que decorrem do facto de ser ela a decidir como se vai começar cada ponto em que serve. Michelle serve como se isso fosse um transtorno e não uma arma. Ora, a verdade é que isto é assim, na minha opinião, porque ela, mais do que ter um saque inconstante, é muito pouco versátil na direcção que escolhe, na velocidade que imprime e até nos efeitos com que executa o golpe de saída. Por isso, e talvez porque o seu serviço não tenha a qualidade exigível a jogadora do seu nível, Michelle aposta tudo nas pancadas de fundo que realmente são assombrosas (embora nem sempre com elas a nossa jogadora abra os ângulos como seria preciso) o que torna o seu jogo previsível e, portanto, mais fácil de contrariar. Em suma, mais do que a também evidente falta de hábitos competitivos, julgo que um dos limites desta tenista com extraordinário potencial tem a ver com própria abordagem técnico-táctica do jogo. Ora, isto faz com que o desacerto de Michelle em Lisboa não seja, do meu ponto de vista, fruto apenas de uma crise mais ou menos passageira de confiança. Estes problemas já me pareciam relativamente patentes nos jogos que (tele)vi da nossa menina prodígio em Roland Garros (com Rezai) e em Wimbledon (com Schiavone). Agora, depois de finalmente a ver jogar ao vivo, penso muito sinceramente que é a altura de mudar de rumo, antes que seja tarde de mais...
E eu acho que seria quase criminoso para ela e para o ténis que as qualidades inegáveis que Michelle apresenta não fossem plenamente desenvolvidas.

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