
João Lopes? Quem é ele? Joga ou é treinador em que clube? Estará certamente a perguntar o leitor deste blog. Outros provavelmente conhecerão o nome e até a cara deste meu convidado de hoje, mas estranharão a sua presença neste contexto. Por exemplo, é possível que alguns ainda recordem, como eu, a gloriosa década de 80 em que na Revista do semanário Expresso, se encontravam as críticas de cinema de quatro pessoas que gostavam e sabiam pensar acerca dos filmes que eram exibidos então em Portugal. Eram eles, Augusto M. Seabra, Eduardo Prado Coelho (infelizmente já desaparecido), Vicente Jorge Silva (sim, esse mesmo, aquele que foi o primeiro director do jornal Público) e ... João Lopes. Confesso que, inicialmente, João Lopes era dos quatro o que eu menos apreciava, pois para mim o que interessava então num crítico de cinema era que ele gostasse dos mesmos filmes que eu gostava de ver. Digamos que procurava com isso uma forma - reconheço agora que ingénua... - de legitimar o meu próprio gosto cinéfilo. Contudo, com o passar do tempo, comecei a perceber que a estratégia crítica de Lopes era, pel menos, peculiar. O seu objectivo principal não era só publicar as suas avaliações acerca dos filmes sobre os quais escrevia, embora também o fizesse. Ou seja, não se tratava apenas de explicar por que motivo se dizia que o filme x era bom e o filme y não o era. O que estava em jogo era chamar a atenção para aspectos menos óbvios de cada filme e, de certa forma, pôr à vista do leitor aquilo que poderia passar como invisível ao espectador de cada filme analisado. Mudei por isso radicalmente de opinião em relação às suas críticas. E, assim, desde essa altura, não perco de vista nenhum dos seus textos.
Ainda hoje, João Lopes continua a fazer crítica de cinema mas, felizmente, alargou o âmbito da sua reflexão para tudo o que sejam imagens (fotografia e sobretudo televisão). Escreve e publica quase todos os dias no Diário de Notícias. Tem de resto um livro muito curioso, chamado Teleditadura. Diário de um espectador, em que relata, durante todos os dias de um ano completo, tudo o que foi vendo no cinema e na televisão. Esse livro, editado há mais de dez anos, chamou-me a atenção por vários motivos, mas aquele que para aqui interessa tem a ver com o desporto e até com o ténis. É que a João Lopes - posso afirmá-lo hoje sem reservas - devemos com certeza alguns dos textos mais inteligentes que se escreveram em Portugal sobre desporto nos últimos tempos. Os meus alunos de Desporto na Universidade sabem desta minha posição e, quando, nas aulas em que lemos um ou outro texto dele, discordam de algumas das suas teses, perguntam quase invariavelmente: «Mas, ó Professor, esse autor alguma vez jogou à bola ou coisa que o valha?». A minha resposta é sempre a mesma: «Não sei, nem me interessa!». O que digo é que aprendi muita coisa do pouco que sei acerca do desporto lendo os textos de João Lopes.
Feitas as apresentações, vou centrar a minha análise no texto hoje publicado no DN, numa rubrica que tem o magnífico título flashpoint e que reproduzo em cima. Já leram tudo? Basta clicar na imagem que ela amplia e o texto fica legível. Pois bem, nesta quase fenomenologia da extraordinária fotografia, está muito coisa dita acerca da beleza da nossa modalidade. No entanto, este texto merece-me duas observações. Em primeiro lugar, julgo que há um equívoco, porventura decorrente de um menor conhecimento prático do ténis. Assim, quando o crítico escreve «podemos supor que a poderosa esquerda de Nadal irá ser aplicada...», certamente ignora ou pelo menos esquece-se que no léxico tenístico português esquerda significa backhand. [Abro aqui um parentesis para dizer que acho o termo inglês muito mais lógico do que o nosso, pois a esquerda de um esquerdino é batida ... à direita! Cá para mim, chamamos direita ao forehand por causa da expressão que os franceses usam. Eles falam do coup droit (à letra, golpe a direito) e no revers (ou seja, golpe batido com a parte invertida da raquete, lá está, backhand). E nós, maus conhecedores da língua de Victor Hugo, lemos droit e toca a traduzir por direita e a outra pancada, para distinguir da primeira, ficou a ... esquerda, provavelmente porque a maior parte dos jogadores batia e continua a bater a forehand à direita do corpo e a backhand à esquerda. O problema é com os esquerdinos, como é óbvio. Já para não falar nos ambidextos: qual é a esquerda de Santoro, por exemplo? Não sei se esta minha interpretação etimológica tem alguma fundamentação histórica, mas à primeira vista faz algum sentido , embora admita que possa estar completamente enganado. Fecho o parentesis].
Ora bem. Claro que a esquerda não é no ténis pancada feita com o braço esquerdo como sucede com os pugilistas, por exemplo. E, por isso, o que Nadal está a fazer é a preparar o seu serviço que, como esquerdino que é, realiza segurando a raquete com a mão esquerda. Enfim, é apenas um pequeno lapso terminológico que não invalida a inteligência deste texto, até porque o autor sabe bem, como se vê pela leitura do último parágrafo, que se trata de um serviço.
A segunda observação tem a ver precisamente com a especificidade do golpe do serviço. É que uma das chaves do êxito de quem serve no ténis passa pela capacidade, ou não, de mascarar que tipo de serviço irá efectuar. Por exemplo, muitos jogadores lançam exageradamente a bola para o seu lado direito quando querem fazer um slice serve. Isso é compreensível e, de facto, quando se ensina a servir com esse efeito é mais fácil e sobretudo mais eficaz dar essa dica. O problema é quando o jogador da resposta descobre que, sempre que o seu oponente lança a bola para o seu lado direito, vem lá um serviço em slice. Nestes casos, o jogador que serve perde a vantagem do factor surpresa no único golpe em que não estamos directamente condicionados pela acção do adversário.Federer e sobretudo Sampras (quando ainda jogava e ele talvez tenha sido o melhor servidor de todos os tempos, mas reconhceço que esta opinião é, como qualquer outra, discutível) são exímios em esconder o tipo de serviço que vão efectuar, pois lançam sempre a bola da mesma maneira, o que dificulta imenso a tarefa do jogador da resposta.Ora, e voltando à foto de Nadal, julgo que grande parte da amiguidade da sua expressão facial (na excelente descrição de João Lopes: «misto de decisão e ansiedade que se reflecte nas linhas tensas da boca e do queixo»...) tem a ver também com o modo como o maiorquino pretende não dar pistas ao adversário acerca do tipo de serviço que vai escolher. E, de facto, o serviço de Nadal está cada vez mais versátil! E, convem dizê-lo, o texto de João Lopes ajuda-nos a perceber como isso se vê na fotografia da autoria de Mark Baker, o outro imprescindível protagonista deste post.

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