Numa extraordinária entrevista publicada hoje no prestigiado diário francês l'Équipe, Roger Federer mais uma vez dá mostras de que um tenista é tanto melhor quanto mais inteligente conseguir ser. A conversa, realizada no Dubai, com o jornalista Fréderic Bernès merece ser lida por variadíssimos motivos e não apenas pelos fans do tenista suíço, embora estes últimos se possam deleitar com alguns aspectos da vida privada da família Federer. Um pormenor apenas para aguçar a curiosidade. Como lida Roger, que diz precisar de dormir pelo menos onze/doze horas por dia para se encontrar em forma conveniente, com as más noites causadas pelas suas gémeas?
Mas claro que a entrevista tem temas mais relevantes. Por exemplo, Federer não hesita em analisar o jogo dos seus adversários ou em assumir que, em certos torneios, está mais interessado em trabalhar aspectos técnicos e tácticos do seu jogo do que propriamente em vencer jogos. Por outro lado, Roger diz que se sente mais motivado do que nunca e explica as razões para tal. E sobre Nadal e o facto de não querer defrontá-lo na próxima eliminatória da Davis? O suíço não esconde o jogo e revela, uma vez mais, o seu inegável fair-play, até quando foca as últimas trapalhadas sentimentais de um dos seus maiores amigos, o golfista Tiger Woods.
Contudo, o aspecto que queria salientar diz respeito às confissões que Federer faz acerca do modo como recupera a motivação nos momentos de maior desânimo. Eis as suas palavras, numa tradução mais ou menos livre da minha responsabilidade: «Para mim, não é preciso encontrar uma motivação exterior. O que faço muitas vezes é voltar às minhas raízes: Por que motivo escolhi, quando era criança, jogar ténis? Por que motivo trabalhei tanto ao longo destes últimos anos? O que é que me dá mais prazer quando jogo? E encontro de imediato as respostas para estas questões. É simples: não penso que exista alguém que goste tanto de ténis como eu». Podemos fazer uma leitura deste back to basics proposto por Federer a partir de um conceito filósofico de Hannah Arendt, para quem o que nos define como humanos é precisamente a possibilidade de renascermos continuamente. No seu célebre The Human Condition, a filósofa alemã de origem judia escreve o seguinte: «Todas as actividades humanas possuem um elemento (...) de natalidade» (trad. port., p. 21). Ou seja, sempre que agimos é como se recomeçássemos e note-se que, para Arendt, apenas quando agimos (action) é que afirmamos a nossa especificidade enquanto seres humanos. É um pouco como quando começamos uma nova época tenística e temos um novo calendário de provas pela frente. Nasce um novo ano e renascemos ao voltar a jogar.
Não sei se Federer alguma vez leu uma página de Hannah (na foto, numa pose pouco desportiva, de cigarro na mão), até porque parece preferir a PlayStation e, pasme-se (no melhor pano cai a nódoa!), era conhecido por apreciar bastante heavy-metal. Mas, quem sabe?, talvez Arendt quando foi viver para os States tenha assistido a alguns jogos de ténis. Ou, se calhar, o problema é meu que ando a corrigir frequências em excesso e, por causa disso, faço analogias demasiado forçadas.

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