Sábado, 31 de Outubro de 2009

Vantagem da Resposta


É normal vermos um jogador bastante zangado ou até bastante frustrado quando faz uma dupla falta. Isso compreende-se porque a responsabilidade desse erro é exclusivamente do jogador que o comete. Um tenista ou uma tenista (como Michelle Brito ou Elena Dementieva), que vêem o seu golpe de saída como uma dificuldade e não como uma arma, precisam de encontrar outros trunfos para que este aspecto menos bom do seu jogo não pese em demasia. Não espanta assim que quase toda a gente considere o serviço como um (senão o) golpe mais importante de um jogador de ténis. Ou que haja quem diga - e com bastante razão, a meu ver - que um tenista se define pela qualidade do seu segundo serviço, pois um cannon ball com percentagens muito reduzidas de êxito no primeiro saque não consegue controlar como gostaria os seus jogos de serviço.

No entanto, se repararmos, cerca de metade dos pontos num encontro de ténis não se inicia com o serviço, mas, sim, com a resposta. Ora, quando os jogadores falham este golpe, e talvez porque não se trata de um erro que não é absolutamente não provocado, o grau de insatisfação é bastante menor do que quando erram dois serviços seguidos. Pois bem, mesmo que se considere que é mais difícil responder do que servir (e, em princípio, é), não deixa de ser estranho que a maioria dos jogadores não dedique mais atenção à resposta.


Por exemplo, durante os treinos, é frequente vermos uma fila de, vamos supor, quatro jogadores a tirar bolas de um cesto e a servir para ninguém responder. Ora, porque não aproveitar esses momentos para se treinar também a resposta? Dois benefícios para este modelo de treino, para além de se executar e aperfeiçoar esta pancada tantas vezes esquecida.

1) O treino do servidor está a ser constantemente avaliado, pois, se ele não consegue acertar os serviços com uma boa percentagem, o jogador da resposta não está ali a fazer nada e começará obviamente a reclamar.

2) Perde-se menos tempo a apanhar as bolas e a colocá-las outra vez no cesto.


Um outro aspecto que às vezes tenho dificuldade em perceber é o facto de frequentemente o jogador que responde não ter um plano na execução do golpe. Já estou a imaginar a pergunta. Como é possível tê-lo se, antes de responder, não sabe ainda como vai ser o serviço? Esta objecção parece boa, mas não é verdadeira, pelo menos em termos absolutos. Na resposta ao segundo serviço, o leque de opções da resposta aumenta consideravelmente e, muitas vezes, quando um jogador falha uma resposta a um segundo saque isso não o aborrece mais do que quando sofre um ace. Por outro lado, muitos jogadores não se preocupam em ler o serviço do seu antagonista e a verdade é que, dessa leitura, podem advir muitas vantagens. Finalmente, o jogador da resposta pode decidir múltiplas estratégias, a saber: o sítio do court onde se coloca para receber o serviço (repare-se como Djokovic, na foto, prepara a resposta bastante afastado da linha de fundo), a direcção para onde vai enviar a resposta (cruzada, ao longo, contra o corpo do servidor - obrigando-o muitas vezes a recuar!-, mais ou menos comprida), qual o efeito que vai usar (o slice é muito útil, sobretudo contra serviços com força e com pouco efeito, mas atenção que a preparação do golpe tem de ser curta) e até se vai ficar no fundo do campo ou, pelo contrário, vai aproveitar um serviço mais fácil para atacar e avançar logo para a rede.


Enfim, muito mais há a dizer sobre a resposta ao serviço, mas talvez valha a pena pensar nas inegáveis vantagens da resposta porque, sem grande esforço, é possível extrair dela enormes benefícios. Ou seja, a vantagem da resposta não é apenas a tradução portuguesa para break-point. Por outras palavras, porque não jogar todos pontos em que respondemos como se fossem verdadeiros break-points?

Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Andre Agassi



Hoje, o meu dia não começou bem. Ao comprar os jornais na tabacaria habitual, fiquei surpreendido com o destaque conferido por jornais desportivos e até pelos matutinos generalistas ao ténis. Porque será? Frederico Gil perdeu ontem, ao que parece sem oferecer grande resistência, com Radek Stepanek em Viena. Se o resultado tivesse sido o inverso, esse jogo teria com certeza honras de primeira página, apesar das (não) notícias que os diários futeboleiros dedicam ao não acontecimento da (suposta) permanência de Paulo Bento como treinador de futebol do Sporting. Mas, não, infelizmente não é do Gil que se fala em todos os jornais. O destaque oferecido ao ténis é uma espécie de presente envenenado. Tem a ver a publicação de excertos da biografia de Andre Agassi no jornal alemão Bild, apesar de o livro apenas chegar às bancas americanas no próximo dia 9. O que surge nesses excertos agora publicados?
Em 1997, quando Agassi, após ter vencido três títulos do Grand Slam - Wimbledon (1992), US Open (1994) e Australian (1995) - e um ano após ter arrebatado a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos (Atlanta), se arrastava pelo 141º lugar do ranking ATP e vivia ainda dificuldades no seu primeiro casamento com a actriz Brooke Shields, recorreu a um estimulante com o nome de Crystral Meth (metanfetamina), situação que foi registada num controle anti-doping positivo. O que agora Agassi revela também é que nessa altura escreveu uma carta à ATP onde, recorrendo deliberadamente a uma mentira, invocou a desculpa de ter bebido, sem o saber, por um copo de um amigo, esse sim toxicodependente e que assim o teria contaminado.
Devo dizer que estes factos agora vindos a público não constituem uma novidade absoluta. Recordo-me que o sueco Magnus Norman (salvo erro, mas não tenho agora tempo para ir confirmar esta minha impressão. Se verificar que se trata de uma imprecisão, prometo corrigi-la logo que possa), o actual treinador do sueco Robin Soderling, em tempos já terá insinuado que algo se teria passado com o Kid de Las Vegas e com o doping. Enfim, mas este aspecto não é o mais relevante. O que agora fica em causa é se a ATP foi ou não cúmplice desta desonestidade. É fácil de perceber que os danos económicos de uma suspensão por dopagem a Agassi têm um efeito infinitamente superior se comparados com o que aconteceu alguns anos depois, por exemplo, com o argentino Mariano Puerta que viu interrompida a sua carreira por dois anos e nunca mais voltou a atingir o nível anteriormente alcançado. Ora, Puerta invocou precisamente a mesma atenuante que Agassi apresentou na tal carta e isso de nada lhe serviu. Leio nos jornais de hoje que a ATP vem agora afirmar que nada poderia fazer para controlar a veracidade das declarações de Agassi. Mas ficará para sempre a suspeita de uma eventual conivência, quanto mais não seja por omissão...
No meio de todo este imbróglio, que irá com certeza ter desenvolvimentos nos próximos dias, registe-se a coragem de Agassi, hoje um exemplar pai de família (cf. video publicitário em http://www.youtube.com/watch?v=zPQJ-GoATxg) e marido de Steffi Graf, em assumir o seu lamentável erro. Contudo, e como já aqui disse há dias, a dopagem é um assunto extremamente complexo e delicado e, por isso, a ele terei de regressar em breve.
Mas a verdade é que o desporto, e o ténis em particular, sai mais uma vez maltratado duma história pouco edificante.
Por isso, hoje, quem gosta realmente de ténis não pode ter começado bem o dia...

Domingo, 25 de Outubro de 2009

Duas dicas para o parceiro do jogador que serve!

Já aqui chamei a atenção para a importância formativa do jogo de pares, mas a verdade é que não basta jogar pares. É preciso aprender a jogar pares! Ora, muitas vezes joga-se pares para encher um court com quatro jogadores. Numa velha revista onde já retirei uma foto anteriormente (veja-se post dedicado a Ivan Lendl), encontrei também a preciosa secção Aguero responde. E aqui os jogadores de pares podem obter resposta para duas das mais discutidas questões entre os apreciadores desta variante:

1. Quem recua para apanhar o balão quando este é usado na resposta ao serviço?
2. Devo ou não devo tentar interceptar a resposta na rede?

É favor clicar na imagem e encontrar uma (para mim boa) resposta a estas duas perguntas. São as duas últimas secções desta página, mas também não se perde nada se lermos todo o artigo.
Claro que este problema só se verifica quando o parceiro do jogador que serve se encontra junto à rede (já agora, bem encostado à rede ou mais afastado?). E, de facto, em princípio, é isso que deve acontecer, mas por vezes há também boas razões para os dois jogadores permanecerem lá atrás.
Um dias destes, voltarei a este tema...

Ricardo Santos e David "Baghdatis" Pedreirinho











Uma boa notícia de hoje é a vitória de Ricardo Santos (Clube Ténis de Moura) num torneio C de sub 18 em Évora. O Ricardo (na primeira foto) é mais um produto da escola dirigida por Valdemiro Correia e tem registado uma progressão assinalável. Desde há muito que apresenta um ténis bastante sólido (apesar do serviço ainda ter uma enorme margem de progressão...), mas hoje impressionou-me a calma e a paciência com que jogou o encontro da final.


Neste blog tenho vindo a chamar a atenção para a importância dos resultados desportivos dos jovens tenistas alentejanos. Isso é normal porque o ténis é antes de mais um jogo ou uma competição e porque julgo que é saudável que os jogadores mais novos se habituem a lidar com o facto de que, no ténis, o objectivo é ganhar. No entanto, muitas vezes as pessoas esquecem-se que, na progressão natural dos jogadores (em especial quando estão em formação), é por vezes necessário parar para reflectir (ou até dar um passo atrás ...) pois só assim se consegue continuar o caminho em bases mais seguras. Esta situação aplica-se, quanto a mim, a um dos jogadores mais simpáticos e mais talentosos do ténis juvenil alentejano. É o chamado David "Baghdatis" Pedreirinho (boa escolha, este nome...) que, esta manhã, em Évora, tive o prazer de ver jogar mais uma vez e que ilustra as palavras que atrás escrevi. É um jovem jogador que tem um nível técnico invulgar para a sua idade (é sub 12 de último ano), mas não tem obtido os resultados que, à partida, estariam ao seu alcance. Mesmo assim, manifesta uma alegria e um gosto pelo ténis que, no futuro, só podem vir a dar frutos. Hoje perdeu na meia-final de um torneio de sub 14 frente a um adversário bastante mais desenvolvido fisicamente (José Fortes que, esta época, joga também por Montemor), mas comportou-se muito bem, revelando mais uma vez o seu grande potencial. Falta-lhe talvez trabalhar um pouco mais fisicamente, porque, para além de tudo, o David tem uma outra óptima e rara qualidade: ouve com atenção tudo o que lhe diz o seu treinador, Gonçalo Marques. Força, "Baghdatis"! É esse o caminho...

Sábado, 24 de Outubro de 2009

Didi, João e Marcio ... ou um dia em cheio no Jamor!














Dediquei este sábado ao ténis e, por isso, viajei até Lisboa para participar numa competição de veteranos. Mas, como só jogava a meio da tarde, aproveitei para ir um pouco mais cedo e para dar um salto ao Jamor, onde decorria a jornada nacional do PNDT. Já escrevi aqui sobre esta iniciativa da Federação que considero globalmente positiva. Este modelo do encontro nacional parece-me mais feliz do que o circuito, pois, pelo que vi hoje, a competitividade de miúdos (e sobretudo de pais e de treinadores) parece-me gerida com mais sensatez. Em rigor, não há vencidos e todos vencem, pois jogam, convivem e divertem-se. Gostei particularmente de observar a alegria dos miúdos na fila para o almoço que, como dizia um deles, era à borlix. Aspecto importante foi também a sessão de esclarecimento dedicada aos pais (não assisti, mas verifiquei como, num ar meio sério meio divertido, uma mãe procurava pôr em prática alguns dos bons ensinamentos certamente aí recebidos), assim como a presença do presidente da FPT, num sinal claro de que esta é uma das grandes apostas da sua direcção.





Estiveram presentes três tenistas sub 10 do Alentejo: Didiana Mariano (Montemor) e João António e Marcio Serro (ambos da Ferreira Activa que, só com um polidesportivo ao que me dizem em muito mau estado, continua a marcar pontos!), que, no magnífico ambiente do Estádio Nacional, passaram com certeza um fim de semana bem agradável. O João (na primeira foto) já está acostumado a estas andanças, pois foi apurado pela terceiro ano consecutivo para estar presente em Lisboa. A sua prestação foi, como de costume, muito elogiada. A Didi (na segunda foto) e o Marcio (na foto mais em baixo, com a treinadora Ana Rita) estão menos rodados, mas mostraram como foi merecida a sua participação na festa. Por isso, os três miúdos estão todos de parabéns, pois trabalharam muito bem ao longo do ano. Os treinadores, também, tal como as famílias que investem muito do seu tempo nestas saudáveis actividades. E assim saí do Jamor convencido que, apesar de todos os percalços e de todas as dificuldades, o futuro do ténis nacional e em particular do ténis alentejano parece ser risonho.

Ah! E como correu o meu torneio de veteranos? Tenho mesmo de falar nisso?
Enfim, melhores dias virão...









Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

A discrição como sabedoria








Uma das melhores surpresas que tive este ano foi a leitura do livro A Fisga. Que tem isto a ver com o ténis? - perguntarão os mais distraídos às novidades editoriais do mercado livreiro. À primeira vista, nada. Mas o autor desta evocação autobiográfica é alguém a quem o Ténis alentejano muito deve. Trata-se de Valdemiro Correia (na foto, durante a sessão de apresentação do livro), responsável técnico do Clube de Ténis de Moura, que agora viu publicada a sua primeira incursão literária. Incursão feliz, digo eu, porque A Fisga é uma obra extremamente interessante. Apreciei particularmente as recordações da infância passada numa pequena aldeia de São Miguel (Açores) onde, entre vários episódios deliciosos (as vivências escolares, a taberna do Cega, as alcunhas dos colegas, etc) destaco a topada de Pauleta (sim, o pai do melhor marcador de sempre da equipa de todos nós), até porque o autor de A Fisga me confidenciou que essa canelada esteve indirectamente na origem das lesões que, há poucos anos atrás, levaram à interrupção da carreira do tenista Valdemiro. Mas as páginas dedicadas à participação na guerra de Angola revelam-se muito úteis sobretudo para uma geração de jovens leitores que, felizmente, não foi obrigada (é o termo...) a viver tão dolorosa experiência. Sem que isto signifique qualquer crítica (nem é este o lugar, nem sou eu a pessoa adequada para a fazer), julgo que o livro se ressente um pouco do salto que o autor dá por cima da adolescência, passando quase directamente da meninice para a incorporação militar. Mas ao mesmo tempo compreendo perfeitamente a opção do autor, que pretende destacar o paralelismo entre as duas paisagens, naturais e humanas, que, de uma forma bem original, se apresentam na capa do livro: Açores e África.





Enfim, fiquei a conhecer mais um escritor português que, sem que eu soubesse da sua habilidade para a escrita, já era uma pessoa que muito admirava pela sabedoria do seu comportamento discreto. Com efeito, Valdemiro Correia sempre tem pautado a sua actividade como treinador, árbitro e até como jogador pela serenidade e pela inteligência evidenciadas nas mais diferentes situações. Moura e o ténis alentejano muito devem à sua competência técnica e pedagógica e à sua estatura moral. Não me refiro apenas aos muitos e óptimos jogadores por ele formados (entre os quais destaco o excelente Antelmo Serrado que chegou a ser vice-campeão nacional em infantis, ou seja, sub 14!!!), mas à continuidade de um trabalho quase silencioso que faz de Moura uma terra que gosta de Ténis, apesar de todas as dificuldades inerentes a uma localidade do verdadeiro Alentejo profundo! (Já agora quando se organiza por aquelas bandas um torneio de veteranos para eu ter um pretexto para lá ir?) Todos os anos jogadores e equipas de Moura competem em provas regionais e nacionais, muitas vezes com bons resultados e quase sempre apresentando um bom nível técnico. Ora, isso é a melhor prova da valia do bom trabalho do seu responsável e treinador. Mas, ao contrário de tantos outros que se põem em bicos de pés para exaltar as suas (supostas) qualidades, Valdemiro prefere temperar as suas intervenções com a ponderação e com o rigor que lhe são característicos. Por outro lado, não consigo apagar da memória o momento de infortúnio que viveu, durante um torneio em Évora, quando jogava (com um entusiasmo que muitos miúdos não revelam) um encontro com o jovem Salvador Cabral e sofreu uma grave lesão nos ligamentos do joelho. Até nessa altura se comportou com a firmeza e a presença de espírito dignas (sei agora depois de ler o seu livro) do Alferes Corisco.


Um abraço de parabéns Amigo Valdemiro e fico à espera de mais livros!

Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Uma grande proeza que continua a servir de exemplo!

Foi há treze anos! A equipa de femininos cadetes (ou seja, sub 16) do Clube Escola de Ténis de Elvas conseguiu aquele que, em minha opinião, constitui até hoje o maior feito do ténis alentejano, ao sagrar-se campeã nacional da categoria. Como destaca a página 50 do número de Novembro de 1996 da saudosa revista Ténis Europeu, as tenistas elvenses (na foto à direita)ultrapassaram a concorrência e repetiram também , no Campeonato Nacional Absoluto por Equipas, o magnífico 3º lugar da época anterior. Ou seja, o título em cadetes não foi obra do acaso mas consequência de um trabalho feito em bases sólidas. Mérito das jogadoras da cidade Liliana Madeira, Silvana Reis e Filipa Andrade e Silva (será que ainda jogam?!) e dos seus treinadores José Sustelo e Gonçalo Lopes e de um clube que, durante muito tempo, foi o mais destacado da região e que agora, após um período menos bom, procura de novo emergir. Recordo que, nesta mesma revista, vem noticiado também o Open BPSM/Mundial Confiança que o CETE organizou e cujo vencedor foi um bom jogador de nível internacional, o americano Jeff Salzenstein. Enfim, tempos gloriosos do ténis em Elvas e que, com o investimento que o clube está de novo a fazer nos escalões de formação, não custa adivinhar que em breve se repetirão. E, neste ano de 2009, o CETE esteve também em evidência ao vencer o Regional por Equipas em + 35 anos, derrotando no jogo decisivo a equipa onde milita este escriba. Só foi pena a não participação na fase nacional deste Campeonato. Talvez para o ano...
Entretanto Alentejo Tennis convida os protagonistas e as protagonistas deste que, para mim, é o melhor resultado de sempre de um clube alentejano no ténis nacional a evocar nas suas páginas, com um conhecimento que eu obviamente não tenho, este (até hoje...) singular episódio.
Fico à espera.
Afinal, são exemplos como este que devem servir de referência a quem aposta no futuro do ténis alentejano.



O valor educativo do jogo de pares






Quem me conhece minimamente sabe com certeza que não sou um adepto de Rafael Nadal (na segunda foto, com o seu treinador e parceiro de pares, Francisco Roig). Para além de ser um admirador quase incondicional de Federer, a verdade é que não gosto do tipo de jogo do esquerdino, considero o seu ténis bastante pouco atraente do ponto de vista técnico e, por fim, irritam-me sobremaneira os seus incontáveis tiques. Dito isto, é quase impossível não reconhecer que Nadal (que para além de tudo é um extraordinário exemplo de fair-play) muito tem contribuído para o desenvolvimento do ténis nos últimos anos. Desde logo, porque impediu a continuidade da supremacia que Federer exibia anteriormente à explosão do espanhol no ténis mundial, passando os dois a disputar (com ligeira vantagem de Rafa, por muito que isso me custe!) o título do melhor mundial numa rivalidade que, nas últimas décadas, provavelmente só tem paralelo com os duelos entre Borg e McEnroe.
É até curioso pensar um pouco no seguinte: quem está mais próximo de McEnroe? Será Nadal ou Federer? E quem representa hoje melhor a figura de Borg, o suíço ou o espanhol? Na minha opinião, é óbvio que, do ponto de vista técnico-táctico, Nadal está mais próximo de Borg: direita extraordinária, enorme consistência do fundo de court com esquerda a duas mãos, poderio físico quase inigualável. Por seu turno, o ténis mais clássico de Federer, aliado a um incrível toque de bola, evoca, de certa maneira, o jogo do rebelde yankee que, contudo, também não era considerado um tenista muito ortodoxo no seu tempo. Recordo-me como os puristas diziam que o golpe de serviço de McEnroe era extremamente prejudicial à sua própria saúde, pelo que se dizia que, mais ano menos ano, ele deixaria fatalmente de jogar com uma quase inevitável lesão nas costas. Ora, se há veterano que ainda hoje dá gosto ver jogar é precisamente McEnroe porque não se tornou numa caricatura de si mesmo, como outros jogadores do seu tempo que assentavam o seu ténis na grande capacidade física, como era o caso do próprio Borg, de Connors ou de Noah.
Mas, por outro lado, há alguns aspectos que, em Nadal, fazem lembrar McEnroe. Desde logo, o facto de ambos serem esquerdinos com a capacidade para fazer dessa característica uma terrível arma. Veja-se, por exemplo, como Nadal consegue tirar um proveito quase máximo do lado das vantagens quando serve. Especialmente contra Federer, o maiorquino consegue evitar um considerável número de break-points à custa do seu serviço cheio de kick.
Para além deste primeiro traço de Nadal, outro há que julgo ser de destacar. Os pares! Claro que Nadal está longe de atingir o patamar de McEnroe em duplas. De resto, o primeiro título numa prova do Grand Slam que o americano conseguiu foi precisamente em pares mistos (fazendo equipa com Mary Carillo), quando tinha apenas 18 anos e num torneio que nunca viria a conseguir vencer nem sozinho nem em pares: Roland Garros(1977). Depois, Big Mac tornou-se num dos melhores jogadores de sempre, mas, se atendermos aos títulos dos quatro major tournements, não deixa de ser curioso que venceu nove competições em pares masculinos contra apenas sete em singulares. O primeiro título de pares masculinos num Grand Slam foi em Wimbledon (1979), com o seu parceiro de (quase) sempre, o longílineo Peter Fleming (ambos na primeira foto), especialista na variante, mas também um óptimo jogador de singulares. A última vitória neste tipo de provas foi também em Londres, desta vez fazendo equipa com o alemão Michael Stich (1992). Só isso bastaria para perceber que McEnroe durou mais como jogador de pares do que como de singulares. Facto que nada tem de estranho, pois o jogo em duplas não é tão desgastante para os tenistas menos novos. Simplesmente em 2006, fazendo par com o sueco Jonas Bjorkman, e com a provecta idade de 47(!) anos, ganhou o torneio do ATP Tour em San Jose em pares. Esta final deu em directo na Eurosport 2 numa memorável madrugada de ténis!
Como disse, o palmarés de Nadal em duplas é quase irrelevante, quer se atendermos ao seu próprio currículo em simples, quer em comparação com o de McEnroe. Até agora, apenas cinco títulos: Umag (2003 com Lopes Moron ), Chennai (2004 com Robredo ), Doha (duas vezes: 2005 com Costa e 2009 com Lopez) e Monte Carlo (2008 novamente com Robredo).
O que há, então, de comum nestes dois jogadores acerca dos pares? No facto de ambos usarem esta variante para melhorar o nível do seu jogo. E se para McEnroe isso sempre foi assumido (ele preferia jogar pares do que treinar, disse várias vezes) no caso de Nadal isso é também flagrante, pois o espanhol revela agora, quando está no melhor da sua forma (e ontem, frente a Davydenko, mais uma vez demonstrou que não está bem!), uma versatilidade que antes não era visível. Terá isso algo a ver com as competições de pares? É bem possível que não seja essa a única razão, mas a verdade é que estou cada vez mais convencido que as duplas continuam a ser injustamente esquecidas, quer no ténis profssional, quer nos torneios dos clubes, quer ainda (e este aspecto deveria merecer mais e melhor atenção dos responsáveis técnicos) no ensino do ténis.
Se nos queixamos que no Alentejo há poucos jogadores - e isso entra pelos olhos dentro! - porque não apostar mais nos pares?
Vantagens? Eis algumas que considero as mais importantes.
1. melhorar o nível técnico dos jogadores (serviço, resposta, jogo de rede).
2. aumentar o espírito de equipa (os tenistas costumam ser bastante egoístas!).
3. possibilitar jogos entre tenistas de nível etário e técnico diferentes.
4. fomentar uma característica que julgo importantíssima no desenvolvimento do ténis e que raramente se encontra noutras modalidades: os jogos entre equipas mistas.
É que - desculpem-me este aparte!- há certos clubes que têm um ambiente de velha caserna militar, tão escassa é a presença das senhoras. Ora, o ténis é um desporto também de famílias e, apesar dos vanguardismos que por aí andam, ainda associo a ideia de família ao indispensável elemento feminino. Por outro lado, o ténis é também uma escola de cavalheirismo ou de sportmanship, em que vencer não pode nunca ser tudo e, neste ponto, os pares - e em especial os pares mistos - têm um indiscutível valor formativo. Conseguem imaginar um mundo sem mulheres? Eu não. Porque havemos de aceitar, então, que o ténis no Alentejo se transforme num desporto predominantemente masculino? Para quem não sabe, uma das maiores proezas (para mim, sem dúvida, a maior proeza!) do ténis alentejano foi alcançada por uma equipa feminina só com tenistas da região. No próximo post, evocarei esse feito! Até lá, porque não jogar uma quadra?!









Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Academia de Ténis de Portalegre, clube do ano?


Portalegre é uma das principais cidades do Alentejo. Estranhamente os portalegrenses e o ténis federado estiveram durante muito tempo de costas voltadas . E digo estranhamente porque, ao longo de muitos anos, a Associação de Ténis do Alto Alentejo esteve sedeada em Elvas, ou seja, no distrito de Portalegre, e, ao contrário de outras localidades próximas (como Monforte ou Campomaior, por exemplo, onde havia clubes federados), o ténis não se desenvolveu como seria de esperar na capital do distrito. Não me interessa agora saber os motivos, se é que os há, para que tal situação tenha ocorrido. A verdade é que esse tempo já parece pertencer definitivamente ao passado, pois as pessoas de Portalegre que gostam de ténis (porque, afinal, elas sempre existiam!) avançaram para a constituição de um clube e, com passos lentos mas bem seguros, foram realizando um conjunto de iniciativas extremamente interessantes, apesar das dificuldades enormes com que se debatem ao nível das instalações. Neste momento, a Academia de Ténis de Portalegre conta apenas com um campo polidesportivo descoberto e mesmo assim tem a funcionar uma escola de ténis com várias dezenas de alunos.



O ano de 2009 foi um ano que julgo decisivo para o futuro da Academia de Ténis de Portalegre. Assim, foram dados passos relevantes para a construção dos futuros courts que irão fazer parte do complexo desportivo municipal. Por outro lado, a ATP realizou durante os meses da Primavera e do Verão um circuito de ténis, com a designação Masters Portalegre 2009, que consistiu na realização de seis torneios no escalão de seniores. Como foi isso possível apenas com um polidesportivo? A ATP soube, com a imaginação e com o dinamismo que caracteriza os meus amigos Filipe Serrote e Rui Serrano, contornar este pormaior. Assim, o clube estabeleceu uma parceria excelente com as autarquias dos concelhos vizinhos (Monforte, Elvas, Crato, Ponte de Sor e Castelo de Vide), realizando cinco provas em cada uma destas terras e uma sexta em Portalegre. Por fim, decorreu uma prova indoor com os melhores jogadores do circuito que se desenrolou em Julho no Pavilhão Municipal da cidade portalegrense. Esta prova teve até prémios monetários e só foi pena que a generalidade dos tenistas alentejanos não tenha dedicado a merecida atenção a esta óptima iniciativa. E não foi por falta de divulgação pois os media regionais deram especial relevo ao Masters Portalegre 2009 que foi assim uma excelente organização da ATP. Para a história, fica o registo da vitória neste primeiro circuito de Filipe Sustelo do CET Elvas (na foto, com Rui Serrano) que é um dos tenistas alentejanos mais talentosos que alguma vez vi jogar.



Contudo, a razão imediata deste meu texto radica noutro acontecimento que, embora menos noticiado, tem para mim um significado tão ou até mais importante. É que, no passado fim de semana, a ATP organizou um torneio sub 12 em Castelo de Vide. Mais uma vez os outros clubes alentejanos não contribuiram com a sua parte, tendo ignorado quase por completo esta prova que fazia parte do calendário da Federação Portuguesa de Ténis, pelo que o quadro foi bastante pequeno. Um aspecto a rever futuramente. Contudo, no torneio participaram dois tenistas portalegrenses e, avaliar pelo que ouvi, quase posso apostar que, daqui a uns anos, que se calhar não serão tantos quanto isso, a ATP vai ser distinguida pela Associação de ténis alentejana como o clube do ano. Numa opinião exclusivamente pessoal, talvez já o merecesse em 2009!

Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

O tenista que se "vinga" nas raquetes



Dois títulos em provas do Grand Slam (US Open, 2000 e Australian, 2005), dois títulos na Taça Davis, várias semanas em nº 1 do ranking ATP, cinco vitórias em torneios Master Series e ainda oito triunfos em provas do ATP Tour. Mais de uma década entre os cem primeiros do mundo, sendo que durante muitos anos ocupou um lugar no Top 10. Quantos jogadores não sonhariam ter um palmarés tão rico e tão impressionante quanto este?


E, no entanto, permanece quase sempre a ideia de que Marat Safin, é dele que tenho vindo a falar, passou ao lado de uma grande carreira. Claro que esta ideia, apesar de algo injusta, assenta num facto que todos são obrigados a reconhecer: Safin é um dos maiores talentos que a história do ténis já conheceu. Tecnicamente perfeito, com uma estrutura física completamente adequada para o ténis moderno, o jogador russo tinha tudo para se tornar num dos maiores campeões de todos os tempos. Haverá sempre mil e uma explicações para justificar o caso Safin, mas a minha visão é esta. Quase todos os jogadores muito talentosos são perfeccionistas, não sabendo por isso lidar com os seus próprios falhanços. Por exemplo, mesmo quando está a dominar largamente um encontro, Safin revela uma enorme impaciência quando falha um ponto fácil. E isso provoca duas coisas: por um lado, o russo entra numa espiral de desconcentração e, por outro lado, o adversário começa a ganhar confiança, passando a acreditar que pode dar a volta ao jogo. Pode parecer incrível a comparação, mas julgo que, neste ponto, ele é muito parecido com Federer que, apesar de tudo, foi corrigindo essa faceta da sua personalidade que, contudo, de quando em vez como que reaparece. Exemplos? Estou a pensar em dois. A última final do US Open frente a Del Potro. E a meia-final do Australian Open, em 2005, contra ... Safin! E a verdade é que, nos seus tempos de júnior, o suiço também era bastante temperamental, tendo recebido ajuda para ultrapassar esta sua fraqueza psicológica.

Quando, na semana passada, assisti pela televisão ao triste jogo do Open da China entre Safin e Nadal, que o espanhol venceu com grande facilidade (e a verdade é que, como se viu depois frente a Cilic, o maiorquino está longe da sua melhor forma), não pude deixar de pensar no seguinte: apesar desta (última?) exibição tão frouxa, Safin proporcionou a quem gosta de ténis momentos absolutamente inesquecíveis. Há quem defenda que o seu exagerado sentido de espectáculo o terá prejudicado do ponto de vista da competição. Um pouco como se Safin fosse uma espécie de versão revista e actualizada do romeno Ilie Nastase que, na década de setenta, se celebrizou tanto pelas suas capacidades técnicas como pelo seu comportamente bizarro (é um eufemismo...) nos courts... E, por exemplo, o público parisiense delira tanto com o magnífico ténis de Safin como com as suas excentricidades durante os jogos: lembro-me, por exemplo, quando Safin baixou os calções após um ponto espectacular, provocando o êxtase entre o público de Roland Garros. Ao vivo, recordo-me especialmente da prestação de Safin num dos melhores encontros que alguma vez presenciei. Em 5 de Abril de 1999, durante a edição desse ano do Estoril Open, num centralito completamente cheio, Safin encontrou outro jogador genial, o marroquino Hicham Arazi que, ainda assim, não tinha o poderio físico do seu adversário daquela tarde. Durante 134 minutos de verdadeira magia tenística, os dois craques puseram em campo dois estilos perfeitamente antagónicos. Safin, na altura em plena ascensão como jogador, batia na bola com uma potência incrível (a sua direita andava que se fartava e, por isso, é que custa vê-lo a falhar tanto este golpe como agora sucede) e Arazi alternava a suas pancadas cheias de top-spin com amorties tão inesperados como demolidores. Era extraordinária a facilidade com que este esquerdino batia aquele backhand a uma mão! Para além disso, o jogo teve imensa incerteza quanto ao resultado final e vários incidentes. Desde as faltas de pé assinaladas a Arazi (que também tinha o seu feitio!), perante a fúria deste que chegou a ameçar entre dentes o liner, até aos acessos de cólera de Safin que, já nessa altura, se vingava nas raquetas, partindo-as com violência. É bem verdade que, no ténis como em qualquer outro desporto, o que fica para a história é o resultado e Safin perdeu esse jogo por 6-7(6), 7-5, 3-6, mas que foi um encontro memorável disso não tenho a mais pequena dúvida.

Na viagem de regresso a Évora, fiquei a saber que uma das raquetes de Safin foi apanhada do caixote de lixo por um jovem jogador do Alentejo que, ainda hoje, a deve guardar religiosamente. Afinal, não é todos os dias que se arranja a raquete de um futuro nº 1 mundial! Mesmo partida...



















Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Os clubes de ténis e o modo como (não) são geridos... Algumas ideias soltas!



Os tempos não correm de feição para o associativismo, desportivo, cultural ou outro. As crescentes obrigações laborais e familiares fazem com que as pessoas tenham cada vez menos disponibilidade de tempo e de energia para se dedicarem a tarefas que, apesar de serem amadoras, quase sempre requerem uma responsabilidade (por vezes até jurídica) e uma dedicação profissionais. Se já existe pouco tempo para jogar e treinar, para quê perder ainda mais horas a dirigir os clubes sem receber nada em troca, a não ser incompreensão e maçadas?
Sei bem como são quase heróicas as missões dos dirigentes desportivos na nossa e em outras regiões do país. Claro que cada modalidade representa um caso específico e, no quadro deste blog, apenas focarei a minha atenção no ténis. Sou associado, com as quotas em dia!, de três clubes de ténis. Dois da região do Alentejo (Clube de Ténis de Évora e Clube de Ténis de Montemor-o-Novo) e um terceiro (o Tennis da Clube da Figueira da Foz, na foto) de outra zona do país. Em todos eles existe, segundo me parece, um denominador comum, pese embora as grandes diferenças que há entre os três. Em todos eles houve e há excelentes dirigentes e excelentes direcções, sendo que nenhum dos seus elementos é remunerado pelas funções que exerce. É extremamente difícil a missão de quem dirige os clubes e, por vezes, esta grande dificuldade (que é real!) serve como desculpa para não se procurar fazer uma melhor gestão. Tantas vezes ouço dizer (e em algumas ocasiões eu mesmo também reafirmo esta ideia) que as coisas não correm bem, mas, já que os elementos da direcção foram os únicos que se dispuseram para desempenhar os cargos, é melhor assobiar para o lado, antes que me venham pedir a mim responsabilidades directivas. Claro que a minha relação com o Tennis Clube da Figueira é mais distanciada, pois só o frequento no meu período de férias. Penso, todavia, que já houve direcções melhores e outras nem tanto. Julgo que a actual está a fazer um óptimo trabalho, mas, repito, não me é fácil pronunciar sobre aspectos mais directamente ligados à gestão deste magnífico clube que, segundo percebo, passa por uma fase de grande renovação, sem contudo perder as suas características tradicionais.


Mas voltando ao assunto principal do texto, eu penso que o problema da gestão dos clubes de ténis é estrutural e, deste modo, não gostaria que os leitores vissem estas palavras como uma desconsideração às pessoas que, de um modo quase sempre desinteressado (embora, às vezes, haja algumas com interesses, ainda que legítimos...), se sacrificam pelos seus clubes. Muitas vezes as coisas correm bem, mas a verdade é que, noutras ocasiões, ocorrem situações desagradáveis (mau ambiente, desperdício inútil de verbas, algum desnorte, etc). Nos três clubes de que faço parte as direcções são colegiais (no mínimo com 4 ou 5 elementos) e daqui talvez decorram duas consequências quase inevitáveis: ou as decisões ficam dependentes de um ou de dois membros da direcção, servindo os restantes dirigentes apenas para fazer número ou as decisões são tomadas por todos os membros da direcção, situação que é obviamente preferível, porque mais democrática e transparente, mas que tem o enorme inconveniente de tornar a gestão do clube menos ágil, dinâmica e até funcional. Como mudar esta situação?
Eis a "minha" ideia, que, segundo sei, é partilhada por outras pessoas e que, de resto, é usual noutros países. Embora isso implique inevitáveis mudanças nos estatutos e nos regulamentos dos clubes, julgo que seria desejável substituir uma direcção de 4/5 elementos por um conselho de clube (as designações interessam pouco, mas, pelo menos, desfazem equívocos...) mais alargado (por hipótese: onze ou quinze elementos, mas claro que isto também depende do número de sócios). As funções desse “conselho de clube”, que seria eleito para mandatos de 4 anos, eram basicamente duas:
1) Traçar as linhas principais de desenvolvimento do clube (objectivos, construção de novos equipamentos, apostas prioritárias, etc) e representar oficialmente o clube.
2) Organizar e avaliar as candidaturas e as atribuições do director executivo que, por sua vez, geria o clube nas suas actividades quotidianas: escola de ténis, competição, torneios sociais, gestão de recursos humanos, conservação das instalações, etc.
Trimestralmente o director executivo reunia com o presidente conselho de clube (ou com uma comissão mais reduzida deste conselho) e anualmente apresentava relatórios de actividades e de contas a aprovar pelo conselho de clube. De dois em dois anos, realizava-se novo concurso para o cargo de director executivo. Quem seria este director executivo? Um profissional do ténis (treinador com formação técnica, de preferência antigo jogador de bom nível) e que revelasse competências na área da gestão, ainda que as directrizes da sua actuação fossem definidas, como já disse, pelo conselho do clube.
Em suma, mantinha-se a democraticidade da gestão, através do conselho de clube que, aliás, dependeria sempre da confiança de todos os sócios que o elegiriam em assembleia geral, e ganhava-se uma maior competência técnica e profissional e uma maior eficácia, bem como um maior dinamismo na tomada de decisão quotidiana acerca dos problemas dos clubes. Claro que isto é apenas um primeiro esboço do que poderia vir a ser um novo modelo de gestão dos clubes de ténis. Por exemplo, ainda não tive tempo de ler a legislação mais recente que há sobre este tema, mas já não era nada mau que estas ideias funcionassem como um “primeiro serviço” para analisar e debater estas questões.
Considero que o ténis é demasiado importante para continuar a ser tão penoso traçar novos objectivos e sobretudo para conseguir alcançar alguns dos “velhos”: desde logo, aumentar o nível dos praticantes, em quantidade e em qualidade.



Desporto e Ética






Problemas informáticos e um início de ano lectivo algo atribulado têm-me impedido de manter o blog tão actualizado como gostaria. Por isso, os leitores perdoarão que recorra, uma vez mais, a material "requentado". Trata-se de um texto de uma comunicação por mim apresentada em 28 de Março de 2008 no Colóquio Internacional Palestras sobre Problemas Éticos Contemporâneos, realizado na Universidade de Évora. O texto versa sobre as relações entre desporto e ética, mas algumas das questões tocam, directa ou indirectamente, o ténis. Muito em breve, novos textos especificamente dedicados ao ténis. Obrigado pela paciência.
«1. Uma simples consulta a qualquer base de dados informa-nos sobre a quase infindável lista de aproximações ao tema da ética desportiva. Desde dos códigos de conduta referentes às diferentes modalidades desportivas até aos quase piedosos discursos a respeito dos benefícios éticos da prática desportiva, é fácil encontrar um pouco de tudo. Porém, o nosso propósito aqui é distinto e sobretudo mais circunscrito. Visamos reflectir sobre dois pressupostos que, apesar de raras vezes explicitados – ou talvez até em virtude desse preciso motivo – contaminam, por assim dizer, o teor de muitos dos discursos em torno deste tema.
O primeiro pressuposto consiste em falar de desporto como se se soubesse exactamente o significado deste conceito. Na verdade, passa-se com o desporto o mesmo que sucede com muitos outros termos que, por serem tão insistentemente utilizados, se tornam quase vazios de significação. Por isso, até pode parecer bizarra esta pergunta que, no entanto, se nos afigura imprescindível: de que falamos quando falamos de desporto? Estranha ou extemporânea, tal interrogação carece de resposta, sob pena de cairmos em mal-entendidos que são desnecessários, porque evitáveis. Ora, julgamos (embora haja alguma presunção neste juízo) que é por não se perder o tempo e a energia necessários com esta questão inicial que se fala tanto acerca do desporto e, ao mesmo tempo, se diz tão pouco. O segundo dos pressupostos de que aqui nos vamos ocupar também podemos concretizá-lo numa pergunta: não exige o nosso tempo ao desporto mais do que aquilo que este deve ou até pode oferecer? Ou, por outras palavras: por que motivo seria o desporto imune às condições de vida contemporânea em tudo aquilo que ela tem de negativo? Como pergunta Jorge Olímpio Bento, «dispõe o desporto de autonomia para ser diferente [do resto da sociedade]? Consentirão os poderes e interesses em voga, sobretudo na economia e nos media, que o desporto tenha como ideia basilar a do velho espírito desportivo» (JORGE OLÍMPIO BENTO, Desporto. Discurso e Substância, Col. “Saberes do Desporto”, n.º 2, Porto, Campo das Letras, 2004, p. 95.)? E, perguntemos ainda, em que consiste este tão proclamado espírito desportivo? Será ele menos compatível com o desporto contemporâneo do que eventualmente terá sido em outras épocas desta actividade intrinsecamente humana? Mais: funcionará tal espírito desportivo como uma espécie de essência supra ou trans-histórica que definiria o próprio desporto?
Da análise destes dois pressupostos e de algumas das suas muitas implicações podem surgir as bases para se pensar o desporto em novos moldes, designadamente nas suas relações com a ética contemporânea.
2. Tal como acontece com outros fenómenos sociais complexos e pluridimensionais, o conceito de desporto significa, ao mesmo tempo, múltiplas coisas, algumas delas porventura incompatíveis entre si, a saber: (tele-)espectáculo mais ou menos global, poderosa actividade económica, instrumento ideológico e político, máquina criadora de mitos e novos deuses, num tempo menos secularizado do que às vezes parece, ou até despretensiosa e aprazível actividade física. Em boa verdade, esta lista está longe de ser exaustiva. Não espanta, por isso, que o conceito de desporto se preste a vários equívocos que, em nome de uma aproximação mais consistente ao nosso tema, urge desfazer.
Avancemos, por isso, com uma primeira definição. O desporto é, acima de tudo, competição formalmente organizada. Excluímos, portanto, do conceito de desporto actividades como passear na ecopista ou frequentar o ginásio no período que antecede o Verão. Actividade auto-télica (Sílvio Lima) ou radicalmente imotivada (Fernando Belo), o desporto define-se também por ser uma acção voluntária. O desportista compete porque quer competir. Nada o obriga a isso. Caso o deseje fazer, o atleta pode interromper a competição. Objectar-se-á, não sem alguma razão, que, por exemplo no desporto de alto rendimento (quase sempre profissional ou pelo menos com uma forte componente económica), as coisas não se passam assim com tanta simplicidade. Mas, em rigor, a competição desportiva depende sempre de uma livre aceitação das suas próprias regras por parte dos participantes. É, portanto, um exercício de plena autonomia. Enquanto jogador, o desportista aceita jogar, isto é, aceita livremente submeter-se a um determinado conjunto de regras (escritas ou não) e, enquanto estiver a decorrer a competição, obriga-se a ele mesmo a tomá-las como normas a cumprir em nome do jogo e apenas em nome dele. O facto de a liberdade de um desportista profissional se encontrar eventualmente diminuída, ao ponto de ele, por vezes, ser obrigado a competir contra a sua vontade, decorre não propriamente da competição, mas da circunstância de ela ter uma natureza profissional. E, também por isso, é óbvio que a questão do desporto profissional sempre teve grande relevância, ao mesmo tempo que deu azo a não menos mal-entendidos, desde Coubertin até aos nossos dias.
Por conseguinte, parece-nos correcto considerar a competição desportiva como um espaço de intrínseca autonomia. Claro que, a dada altura, é possível mudar as regras com vista a tornar a competição mais justa, leal e humana ou até menos perigosa para a saúde dos competidores. Todavia, enquanto o jogo decorre, as leis são imutáveis. Tudo se passa como se a competição instituísse um universo, bem delimitado no tempo e no espaço, que, através de uma metamorfose simbólica, funcionasse à margem da chamada vida real. Neste ponto, a competição desportiva, enquanto universo ficcional que livremente se aceita, aproxima-se, pelo menos em certos aspectos, da experiência artística ou até da experiência religiosa.
Por fim, a competição desportiva visa a obtenção de resultados, isto é, o esforço e o talento dos atletas podem e têm de ser objectivamente avaliados. Com efeito, ao contrário de outras actividades (como a arte, a ciência ou a própria filosofia), o desporto tem como uma das suas finalidades prioritárias a recompensa dos melhores. Sem resultado, não há competição, independentemente da forma de que esta se possa revestir. Claro que também as outras actividades referidas valorizam os melhores mas, o que significa ser o melhor em arte, em ciência ou em filosofia? A verdade é que muitas vezes, nestes campos da actividade humana, o reconhecimento do mérito implica uma distância histórica, pois os melhores são intempestivos. Por exemplo, Fernando Pessoa recebeu um prémio de poesia (de resto, um segundo lugar – o primeiro dos últimos como se diria num certo jargão desportivo) pelo seu livro Mensagem que, apesar da sua valia, não esgota, como é óbvio, a riqueza poética do universo pessoano. Por outro lado, essas distinções raramente encontram consenso, muito menos unanimidade. No desporto, pelo contrário, é costume dizer-se que o que fica para a história são os resultados e, de facto, o vencedor obtém quase sempre uma distinção que é simultaneamente imediata e duradoira (embora, no limite, não definitiva, porque novas competições se irão efectuar). Luc Ferry, num interessante ensaio dedicado ao tema do olimpismo, chama a atenção para este ponto de forma muito clara, escrevendo: «Noutros domínios, o meu, por exemplo, o da filosofia, é possível na verdade tudo discutir: será que este ou aquele é hoje um grande filósofo ou, pelo contrário, um intelectual de pouca envergadura? Tudo isto se torna eminentemente discutível (...) Mas, no domínio do desporto, com a raquete na mão, não há discussão possível: 6/0; 6/0; 6/0»( LUC FERRY, “Olympisme, Humanisme et Démocratie”, Coubertin et l’Olympisme. Questions pour l’avenir. Actes du Congrès du Havre 1997, Lausanne, CIPC, p. 175).
Só que esta avaliação indiscutível do mérito dos vencedores das diversas competições radica no princípio de que o espírito desportivo foi respeitado. Por exemplo, um dos problemas que, neste momento, mais preocupa os responsáveis pelas provas de ténis profissional tem a ver com a falsificação voluntária dos próprios resultados. Com efeito, alguns tenistas já foram acusados de perder voluntariamente um jogo, com vista a auferirem avultados lucros pecuniários provenientes dos cada vez mais sofisticados sistemas de apostas. Mas, perguntemos: será que estes atropelos ao chamado espírito desportivo, para além de tantos outros que enchem as páginas dos jornais e os programas dos canais de televisão, desqualificam, por si só, o desporto, fazendo deste uma actividade menos digna? É que seria também possível avançar com outros episódios num sentido contrário.
Por exemplo, aquele que foi protagonizado pelo italiano Paolo Di Canio (na foto, à direita), em Dezembro de 2000, durante um jogo a contar para o campeonato inglês que opunha sua equipa, o West Ham, ao Everton. Este jogador de futebol profissional que, de resto, é tão conhecido pelas suas proezas desportivas como pela controvérsia que suscita (desde uma agressão a um árbitro após ter sido expulso no decorrer de um jogo até à forma muito pouco aceitável com que costumava festejar os golos marcados, efectuando uma saudação que evocava uma das personagens que confessadamente mais admira, Benito Mussolini), vendo o guarda-redes adversário a contorcer-se com dores, lesionado no chão, não hesitou em agarrar a bola com as mãos em vez de rematar para a baliza deserta. Este comportamento foi de imediato elogiado por colegas e adversários, bem como pelo público que entendeu que a saúde do futebolista magoado valia mais do que os pontos em disputa naquela partida do campeonato. Aliás, no final dessa época, a FIFA, entidade máxima que superintende as competições de futebol a nível mundial, atribuiu a Di Canio um prémio de fair-play por causa deste seu gesto. Curiosas foram as palavras deste extraordinário jogador quando, surpreso, recebeu a notícia do prémio: “Pareceu-me a coisa acertada a fazer no momento, mas a verdade é que não pensei muito no assunto”.
Mas é preciso concordar que o que justifica a atribuição do prémio de fair-play é o ineditismo do episódio. A finalidade da competição é o resultado. É para isso que o atleta joga. Nenhum jogador de futebol entra em campo a pensar que vai jogar como Di Canio. Para o bem e para o mal.
3. Dito isto, abramos um pequeno parêntesis para abordar o modo como será possível promover ou pelo menos valorizar o fair-play na educação desportiva. Trata-se de um tema vasto que aqui apenas podemos tratar de viés. Num ensaio com o sugestivo título “Fair-play: menos palavras e mais acção”, Lieke Vloet, membro do Comité Olímpico Holandês, opera uma distinção que nos parece muito produtiva entre o que chama fair-play abrangente e fair-play estrito (LIEKE VLOET, “Fair-play: menos palavras e mais acção”, AAVV, Ética e Fair-Play. Novas Perspectivas, Novas Exigências, Lisboa, Confederação do Desporto de Portugal, 2006, p. 202.).
FAIR-PLAY ABRANGENTE: designa não apenas a prática desportiva com honestidade e com desportivismo [e reparemos que esta definição incorre numa forma circular: fazer desporto com desportivismo], mas também a finalidade dessa prática: promoção de valores, a saúde, a integração social e a orientação dos jovens, etc.
FAIR-PLAY ESTRITO: designa apenas o modo correcto como se actua durante a competição.


O que é que nos interessa nesta divisão semântica do conceito de fair-play? Antes de mais, jogar com fair-play é defender o espírito do jogo, é valorizar o jogo, é respeitar a competição. Ora, só há competição se houver adversário (que Sílvio Lima em tempos definiu como sendo um colaborador antagonista); portanto, se desrespeito o adversário, estou a ferir de morte o jogo.
Voltemos ao caso Di Canio e ousemos propor a seguinte hipótese para explicar um comportamento que o próprio jogador confessou ser incapaz de justificar. A atitude de Di Canio faz-nos lembrar o comportamento do músico que interrompe o concerto por não haver o silêncio necessário na sala do espectáculo. Ou seja: que beleza ou até que sentido há em marcar um golo numa baliza sem guarda-redes? Por isso, Di Canio defendeu o jogo. E é essa a obrigação prioritária do desportista: defender o espírito do jogo. Ora, convém reconhecer que nem sempre é isso aquilo a que assistimos.
4. O segundo pressuposto de que falávamos no início era o seguinte: não estaremos nós a exigir ao desporto mais do que aquilo que ele deve ou pode oferecer?
Para nos acercarmos deste assunto, interessa, quanto a nós, contornar duas tentações, opostas e, num certo sentido, simétricas que, habitualmente, se encontram associadas aos discursos proferidos sobre o tema das relações entre ética e desporto. Por um lado, é frequente ouvirmos dizer que o desporto é uma magnífica escola de virtudes e um importante meio de educação para a cidadania (é o sentido de fair-play abrangente de que falava Lieke Vloet). De resto, os apoios financeiros facultados ao desporto por entidades públicas e privadas (a publicidade, por exemplo) encontram a sua justificação neste princípio. Ou seja, o desporto promove um conjunto assinalável de valores, entre os quais os chamados valores éticos. Mas de que ética se fala aqui quando nos referimos a este tipo de valores? Por exemplo, faz ainda sentido falar-se de ética, no singular? Ora, mesmo que esta tese, segundo a qual o desporto promove valores éticos, não seja objectivamente falsa (e realmente consideramos que o não é), seria necessário viver numa pouco razoável ingenuidade para desconhecer que o desporto é também um lugar onde se cometem, quando não se fomentam, constantes atropelos à dignidade daqueles que nele participam ou até daqueles que a ele assistem. Não por acaso, quando se fala nas relações entre ética e desporto, muitas vezes pensa-se nisso mesmo: na falta de ética associada ao desporto.
Mas ao colocar o problema nestes termos não estaremos a situar o desporto numa espécie de redoma que o impedisse de ser influenciado pelas outras dimensões da sociedade contemporânea? Atentemos, para terminar, no caso da dopagem, problema central das relações entre desporto e ética e que, bem vistas as coisas, não é um fenómeno exclusivo do nosso tempo. Sem querer desprezar a importância do assunto, que tem hoje decisivos desenvolvimentos (a começar pelo chamado doping genético), talvez valha a pena reflectir nas palavras de Isabelle Queval, autora de um dos mais importantes estudos de filosofia do desporto publicados nos últimos anos S’accomplir ou se dépasser. Essai sur le sport contemporain, para quem «vivemos numa espécie de mito do desporto são e igualitário» ISABELLE QUEVAL, “Nous vivons dans une societé dopante”, entrevista a Ouestfrance-école.com). Ora, onde radica esse mito ? No facto de haver «uma lisibilidade do êxito desportivo, ao passo que no resto da sociedade actual essa lisibilidade é consideravelmente menor» (Ibidem). Todavia, essa indiscutível qualidade do desporto que valoriza o talento e o esforço dos atletas, independentemente de outros factores como o status social, a ascendência familiar, a religião ou a riqueza económica, tem o efeito, provavelmente inevitável, mas, sem dúvida, perverso, de produzir um escrutínio social e moral sobre os desportistas de alto rendimento que não se verifica noutros campos da vida pública. O político que, em plena campanha eleitoral, realiza seis comícios por dia ou o estudante que, em período de exames, fica vários dias sem dormir não são obrigados a prestar contas num controlo anti-doping, ao passo que o atleta tem de evitar o uso de produtos contra a queda do cabelo se quiser continuar a competir. Será isto justo ?»

Uma curiosidade final. Isabelle Queval, filósofa na foto da esquerda, foi jogadora de ténis de excelente nível, tendo feito parte, nos anos setenta, da selecção nacional de França, no escalão de juniores. É, portanto, alguém que sabe do que está a falar.

Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Equipas de Veteranos do C.T. Évora em destaque!

Faz parte da cultura do ténis eborense a importância dada às competições por equipas. Desde os gloriosos tempos do Lusitano (segundo relatos que tenho ouvido...) até aos dias de hoje, as pessoas que gostam de Ténis em Évora sempre valorizaram os populares interclubes. Por mim, que sempre gostei de jogar competições por equipas, aprecio muito esta característica do Clube de Ténis de Évora que nunca descurou esta vertente do ténis que é simultaneamente competitiva e social. Outros clubes não partilham desta preocupação e, do meu ponto de vista, não fazem bem. Mas cada um sabe de si...

Neste fim de semana, as equipas de veteranos do CTE participaram nas fases nacionais dos Campeonatos referentes aos escalões de +45 e de +50. Assim, nos courts do CIF (em Lisboa), o CTE esteve presente com os menos novos, tendo até obtido uma excelente vitória sobre a formação das Caldas da Rainha, perdendo apenas frente à forte equipa do BES. Apesar da pouca rodagem competitiva da equipa, os eborenses, "comandados" pelo incansável Sebastião Fernandes, mais uma vez foram os únicos representantes do ténis alentejano nesta importante prova.


Por sua vez, os mais novos estiveram presentes no Porto, no Clube de Ténis local, tendo conseguido alcançar o objectivo principal desta longa viagem: a manutenção no escalão maior. Recordo que, no ano passado, o CTE tinha subido ao grupo dos melhores do país, ao disputar com êxito o campeonato do segundo escalão em Faro (na foto). Muito por causa dos esforços organizativos do seu capitão, António Palma, que conseguiu reunir um lote muito bom de tenistas veteranos de vários pontos do Alentejo e que, este ano, contratou dois outros tenistas nuestros hermanos, o CTE mais uma vez prestigiou a sua tradição, apesar das naturais derrotas face aos poderosos Espinho e Guimarães.


Devo ainda registar a presença de uma equipa de SUB 14 do CTE no respectivo Campeonato Nacional e, especialmente, a participação da formação de seniores no Nacional da Primeira Divisão no próximo mês de Dezembro, à semelhança do que aconteceu no ano passado. Sobre esta última participação, só julgo que é pena não proporcionar aos jovens tenistas do clube um contacto mais próximo com os profissionais que representam o CTE. No campeonato transacto, tal não foi possível (por motivos financeiros, segundo soube), mas espero muito sinceramente que, desta vez, não se perca uma excelente oportunidade para potenciar ainda mais a contratação que o clube faz dos seus craques. Fica a sugestão.


Numa modalidade que é, por natureza, individual, com as vantagens e os inconvenientes que daí resultam, é de salientar a aposta que o clube do Bairro do Granito continua a fazer nos Interclubes, constituindo, assim, um exemplo para outras formações do Alentejo.

Domingo, 4 de Outubro de 2009

Boa tarde de ténis ... com Alentejo a menos e Pais a mais!


Fui hoje ao Clube de Ténis de Montemor-o-Novo para assistir à jornada da tarde do Torneio "Royal Maid" de Sub14, a única competição juvenil de Nível B que se disputa na nossa região. A prova foi algo prejudicada por várias ausências resultantes da sobreposição com outras competições (aspecto rever por quem de direito). Mesmo assim, nos jogos a que pude assistir, isto é, quartos de final masculinos e meias finais femininas, algumas ideias há a reter e outras tantas questões a fazer:



1. Seis jogos extremamente bem disputados, com os jovens tenistas a revelar quase todos uma grande rodagem competitiva e, de um modo geral, com muito boas pancadas de fundo de campo. Serviços nem por isso e volleys quase não vi. Não estará a escapar nada aos treinadores?

2. O grande potencial técnico e físico de Ana Filipa Santos (na foto), jogadora que representa o Clube de Ténis de Montemor o Novo e que é a actual nº1 nacional do escalão (apesar de para o ano ser ainda jogadora sub 14!), que me pareceu muito acima de todos os jogadores e jogadoras que vi em Montemor. O seu ténis faz-me lembrar, em termos técnicos, a francesa Amélie Mauresmo. Contudo, julgo que a Pipa não tem ainda um sentido táctico de jogo que lhe permita traduzir sempre em resultados as indiscutíveis qualidades que apresenta. O modo como entregou o jogo à algarvia Ivone Álvaro (que revelou uma óptima capacidade de concentração, mas a verdade é que sua bola anda muito menos...) talvez não se fique a dever apenas a um dia menos bom. Fiquei com a sensação (porventura errada...) de que a Ana Filipa joga sempre à mesma velocidade: a todo o vapor! Se funciona, como no início do primeiro set desta tarde, tudo bem. Se não funciona, onde está o plano B?

3. O estranho Pedro Santos (também CTMN) que, contrariamente ao que tenho visto dele, nunca entrou em jogo, frente a um adversário que nem cheguei a perceber se está, ou não, ao alcance do jogador montemorense. Hoje, o Pedro não esteve lá. Falta de ritmo de competição a um nível mais elevado?

4. A ausência de tenistas dos clubes alentejanos, excepto Montemor e Elvas. Não seria de aproveitar os torneios que se disputam mais perto de casa? Deficiente programação da época? Para quem se queixa - com toda a razão, aliás! - que competir é tarefa financeiramente muito dispendiosa, confesso que não percebo. Tanto mais que os clubes foram expressamente avisados do prazo de inscrições e os quadros não estavam, infelizmente, muito fortes e eram sobretudo pouco concorridos... É que as aulas começaram há poucas semanas e, desta vez, a desculpa dos testes não serve.

5. Por fim, os pais. Vi poucos treinadores a acompanhar os jovens tenistas. Porém, vi alguns pais que quase me estragaram a tarde. A começar pelo coaching mais ou menos dissimulado (é proíbido, sabem?). Mas em especial com algumas aviltantes manifestações de grosseria: comentários para filhos e, pasme-se!, para adversários, insultos, ameaças e discussões aos berros com os jogadores e com os outros pais e até queixas e recriminações ao juíz-árbitro que foi obrigado a exercer a sua autoridade, o que fez sempre com bom senso. Em função deste enquadramento (e nem quero imaginar o que serão as coisas em casa...), eu seria quase levado a desculpar os miúdos que, neste contexto, até se portam bastante bem. Mas a verdade é que não sou capaz.
Em nome da justiça, devemos dizer que estes pais são (ainda?) uma minoria. Mas será que isto é suficiente para descansar quem gosta de ténis? Acho que não.
E, depois, estes torneios não deveriam ser uma ocasião para os jovens jogadores se divertirem?
Como explicar, então, tanto nervosismo, tanta raiva, tantos palavrões e tanta choradeira?
O problema deve ser meu que sou um cota...

Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

PNDT e Alentejo: caminhos desencontrados?

Apesar da sua designação sempre me ter parecido infeliz, julgo que é possível hoje, quando nos aproximamos do final do terceiro ano de actividades, fazer um balanço claramente favorável do Programa Nacional de Detecção de Talentos. Mesmo sem considerar com o rigor necessário os dados estatísticos, parece mais ou menos pacífico que as coisas têm corrido razoavelmente bem. Talvez seja discutível o enfoque exageradamente competitivo que, a partir do 2º ano (salvo erro), se passou a dar ao escalão de sub 8. É possível igualmente que falte um maior esforço no esclarecimento dos jogadores e dos pais acerca dos objectivos principais deste programa. Sim, eu sei que há um documento, cuja fonte é o IDP, acerca do modo como os pais devem colaborar nas actividadeso PNDT, mas não é, infelizmente!, raro observar pais (e, por vezes, os próprios treinadores!) a discutir entre si a pretexto do jogo que os filhos estão a disputar. Mas, enfim, este é um aspecto de um problema mais vasto e complexo e a ele tencionarei também voltar mais tarde.

Repito: o PNDT, apesar de dele não fazer uma avaliação tão inequivocamente positiva quanto a que é feita pela Federação Portuguesa de Ténis, parece-me uma ideia muito interessante e que, de uma forma geral, tem sido colocada em prática de forma pelo menos eficaz. Dito isto, importa perguntar: quais os efeitos do PNDT no Alentejo?



Se se observar o número de jogadores filiados (a distinguir dos praticantes filiados), verifica-se que, na Associação de Ténis do Alto Alentejo, há apenas 26 tenistas com menos de 10 anos, distribuídos do seguinte modo:

Academia Tenis Portalegre (ATP) -2;
Clube Escola Ténis Elvas (CETE) - 6;
Clube Ténis de Évora (CTE) - 2;
Clube Ténis Montemor-o-Novo (CTMN)- 7;
Ferreira Activa Academia Ténis (FAAT) -9.

Os outros clubes não têm nenhum jogador filiado do escalão de sub 10!!!
Algumas pequenas notas apenas, porque, neste caso, os números falam infelizmente por si.

a) Se exceptuarmos o FAAT - um dos clubes com menos anos de actividade e com maiores carências em termos de instalações - que conta com um total de 18 jogadores filiados, pelo que metade são do escalão de sub 10 (e, portanto, potenciais participantes no PNDT), todos os outros clubes evidenciam uma clara desproporção entre o número total de jogadores filiados e aqueles que pertencem ao escalão de que estamos a falar. Do meu ponto de vista, o mínimo desejável seria cada um deles ter, como sucede em Ferreira do Alentejo, 50% jogadores de sub 10. E, já agora, também tenistas do sexo feminino. Caso contrário, que aposta se está a fazer no futuro?

b) O CTMN apresenta um valor muito diminuto de jogadores de sub 10, se se atender ao facto de ter 340 praticantes neste mesmo escalão. Há uma notória dificuldade em fazer um transfert do Mini-Ténis, que é realizado nas escolas do 1º ciclo do ensino básico, para a actividade de iniciação à competição formal. Esse processo não é com certeza simples, pois o Mini-Ténis realiza-se nas instalações das escolas no âmbito das actividades extra-curriculares, mas, mesmo assim, talvez valesse a pena fazer mais alguma coisa para alterar esta situação.

c) Dois clubes (CETE e CTE) que, embora com percursos bastante distintos, têm uma razoável tradição nos escalões mais jovens e que dispõem de boas instalações, apresentam um número extremamente baixo, facto que, à primeira vista, é difícil de compreender.

d) Portalegre tem ainda muitas dificuldades em termos de instalações, pelo que é natural que os resultados, a este e a outros níveis, ainda sejam escassos. Com a projectada construção de alguns courts, tudo indica que esta situação poderá vir a alterar-se.
Em suma, se o PNDT parece ser um êxito a nível nacional, a verdade é que os clubes alentejanos têm andado bastante distraídos. O que é uma pena, tanto mais que, em todas as edições deste programa, jovens tenistas do Alentejo conseguiram o apuramento para as Fases Nacionais. Qualidade não parece, por isso, faltar. Porque não fazer uma aposta séria e consistente também na quantidade?

Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Profissionalismo vs "fair-play" ou o caso do tenista kantiano



Porque nem sempre há imaginação para alimentar o blog, os leitores certamente não levarão a mal que publique um texto de minha autoria que já tem alguns anos e que, julgo, não perdeu toda a sua actualidade. Trata-se de um capítulo do livro O Fogo do Espírito. Desporto, Ética e Olimpismo, edição do Comité Olímpico Português (2007) e que mantive quase na íntegra, eliminando apenas alguns aspectos que, em meu entender, interessarão menos àqueles que acompanham Alentejo Tennis e cujas palavras de apoio, tal como as críticas dirigidas, justificam o meu caloroso agradecimento. Por isso aqui vai:

«Em Outubro de 2001, num encontro disputado entre o australiano Wayne Arthurs (na foto), à época n.º 77 da classificação mundial do ATP, e o israelita Noam Okun (n.º 114) durante a primeira ronda do Torneio Internacional de Lyon (...), competição que distribuía um total de prémios monetários no valor de 775 000 dólares, ocorreu um facto relativamente insólito ou, pelo menos, surpreendente. Tendo os dois tenistas ganho uma partida cada um, chegou-se ao tie-break do set decisivo. Nessa altura, Arthurs obtém a vantagem de 8-7 pelo que dispõe de um match-point. O tenista australiano, fiel ao seu tipo de jogo atacante, corre para a rede e o adversário procura derrotá-lo com um passing-shot que, no entanto, sai excessivamente lateralizado, levando a bola a bater fora dos limites do campo. O árbitro anuncia, portanto: «Jogo, partida e encontro para Wayne Arthurs!». É então que, perante a surpresa geral, Arthurs informa o adversário, o árbitro e o público de um facto que a todos tinha passado completamente desapercebido. A bola tocara muito ao de leve na sua raquete, pelo que o ponto deveria ser concedido a Okun. Deste modo, o encontro prossegue e os dois pontos seguintes são vencidos pelo jogador israelita que acaba por vencer o encontro por 10-8 no tie-break da terceira partida, passando por isso à eliminatória seguinte do Torneio de Lyon.
Para melhor percepção do que está em causa nesta acção realizada por Arthurs, não é decerto inútil referir, ainda que brevemente, alguns aspectos acerca do modo de funcionamento do circuito profissional do ATP. Há vários milhões de praticantes de ténis em todo o planeta; destes, apenas cerca de dois mil conseguem obter os resultados e os pontos necessários que lhes permitem fazer parte do ranking mundial masculino. Para se ter uma ideia do grau de competitividade existente, basta pensarmos que apenas uma dezena de jogadores portugueses se encontra neste momento classificado no ranking ATP. Mais: todos estes tenistas profissionais concorrem directamente entre si, em torneios realizados no sistema de eliminatórias. Desta forma, cada tenista derrotado abandona imediatamente o torneio de que o encontro faz parte. Não é, para além disso, completamente impossível que o primeiro classificado defronte o tenista n.º 1999, por exemplo. Relembre-se que o chamado circuito feminino organizado WTA é constituído por competições e classificações autónomas, pelo que apenas muito ocasionalmente se disputam competições na modalidade de pares mistos.
Por outro lado, os jogadores são, em larga medida, remunerados pelos prémios monetários dos respectivos torneios e, ainda por cima, são eles que devem custear múltiplas despesas implicadas na sua actividade profissional: honorários dos treinadores, viagens, estadias, alimentação especialmente preparada para a competição, acompanhamento médico, equipamentos, sessões de treino, etc. Daí que não seja indiferente o resultado obtido pelos tenistas durante as competições realizadas. Muito pelo contrário. Distintamente do que se passa em algumas outras modalidades, em que os atletas profissionais são, por exemplo, remunerados com um salário mais ou menos fixo que lhes é pago pela equipa que representam, o tenista profissional é, por assim dizer, o patrão de si mesmo, com as vantagens e os custos que lhe são inerentes. De qualquer modo, grande parte dos seus ganhos pecuniários deriva directamente dos respectivos êxitos desportivos(...).
Neste quadro, poderemos afirmá-lo sem rodeios: no encontro a que nos temos vindo a referir, Wayne Arthurs prejudicou deliberadamente a sua carreira profissional. Dir-se-ia que, ao agir como agiu, Arthurs adoptou uma conduta de tipo kantiano. Com efeito, Kant, na obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes, efectua uma distinção entre três tipos de acções:

1) acção por inclinação imediata;
2) acção conforme ao dever;
3) acção por dever;

A acção de tipo 1) não é, em rigor, uma acção verdadeiramente humana, no sentido em que a sua motivação (e o uso deste conceito está aqui longe de ser pacífico...) se situa na ordem do instinto, da reacção imediata e, portanto, não reflectida. Entre os tipos 2) e 3) é que poderá haver alguma confusão, pois ocupam territórios cujas fronteiras nem sempre são absolutamente claras.
Para tentar dissipar essa ambiguidade, Kant apresenta a seguinte situação. Imagine-se um merceeiro que recebe na sua loja um cliente pouco experimentado, por exemplo, uma criança de tenra idade e pouco expedita em operações de aritmética. Caso o seu estabelecimento esteja cheio, o comerciante esperto não vai decerto ludibriar a criança subindo os preços do produto que esta pretende adquirir. Todavia, diz Kant, embora esse tenha sido indiscutivelmente um procedimento correcto (acção conforme ao dever), nada prova que o comerciante tenha agido assim por dever e princípios de honradez. Fê-lo, porque teve receio de perder clientela, resistindo por isso à inclinação imediata de subir ilegitimamente o preço. Qual o intrínseco valor moral de uma acção que, como se vê, foi realizada com intenção egoísta? Trata-se simplesmente de um caso em que os fins como que justificam os meios: para no futuro não vir a ser prejudicado, o comerciante não fez o que realmente lhe apetecia fazer.
Regressemos ao Torneio de Lyon. Repare-se que Wayne Arthurs não recebeu nenhuma recompensa pela acção que realizou. Tão pouco se tratou de um comportamento efectuado com vista a fugir a uma qualquer sanção, por simbólica que fosse. Quantas vezes não deixamos de fazer o que desejamos – no fundo, resistimos às nossas inclinações imediatas – porque temos receio de vir a ser punidos, quer esses castigos sejam definidos juridicamente ou apenas se tratem de desaprovações sociais? Um tenista que transgride o código de conduta estabelecido pelo ATP é penalizado de diversas formas. Desde logo, sanções técnicas que, no limite, podem levar à desclassificação no encontro e até à suspensão das competições, com os problemas daí decorrentes. Noutras situações, existem também as multas pecuniárias. É natural, portanto, que os tenistas profissionais se preocupem em conhecer e em cumprir os regulamentos. Fazem-no para proteger os seus legítimos interesses e, ao fazê-lo, estão a agir de modo conforme ao dever.
Todavia, há alguns comportamentos que, embora se situem dentro dos limites impostos pelos regulamentos, nem por isso parecem estar isentos de desaprovação pública. Vejamos o caso de um tenista que, para ganhar um encontro, use métodos não inteiramente limpos. Por exemplo, a simulação de um problema físico com vista a quebrar o ritmo do adversário em momento próximo da derrota. Muitas vezes, em situações deste género, o jogador acaba apenas por ser penalizado pela reacção menos simpática do adversário ou até do público. No fundo, o tenista pode até nem ter infringido os regulamentos. Ou melhor: não é exactamente fácil provar que a legislação foi desrespeitada. Mas a verdade é que a conduta do tenista, sobretudo se for repetidamente observada, passa a receber a desaprovação dos colegas de profissão e do próprio público.
No caso de Wayne Arthurs, porém, tudo se passou no domínio privado. Quase poderíamos dizer que se tratou de um dilema entre a sua consciência moral e a raquete que empunhava. Em linguagem kantiana, estamos absolutamente convencidos de que esta foi uma acção praticada estritamente por dever. Claro que, como começámos por admitir, esta é uma ocorrência algo surpreendente. Num certo sentido, é esse o motivo que faz com que seja digna de notícia. Mas a verdade é que, por um lado, no ténis profissional (como aliás em muitas outras modalidades), atitudes cheias de fair-play não são tão raras assim. De tal modo que é frequente vermos tenistas a considerarem bolas do adversário válidas, depois dos árbitros as julgarem fora. Nesses caso, prevalece a opinião do jogador que, de livre vontade, contraria o veredicto do juiz em seu próprio prejuízo. Ainda assim, interessa-nos analisar um pouco melhor o caso de Arthurs.
Imaginemos que o jogador australiano nada tivesse dito no momento em que o árbitro anunciou o final do encontro. Como é óbvio, não seria penalizado. Com efeito, mais ninguém se apercebera do que realmente tinha ocorrido. Seria possível e, falemos com total sinceridade, seria até natural que o próprio Arthurs se limitasse a aceitar a decisão da arbitragem. Afinal, não é para tomar decisões que os árbitros são pagos? A cada um a sua função: o tenistas batem na bola com a raquete e os árbitros fazem cumprir as regras do jogo. Não estão os treinadores constantemente a ensinar que os árbitros têm sempre razão, pelo que nada adianta discutir as suas decisões? Estas questões não perdem, neste contexto, nenhuma pertinência.
Para além disso, o próprio Wayne Arthurs poderia efectuar o seguinte raciocínio: Não tenho o direito de prejudicar os meus interesses e, sobretudo, os interesses daqueles que também dependem dos meus resultados desportivos: a minha família, o meu treinador, os meus patrocinadores, etc. Quem poderia, em rigor, censurar Arthurs por pensar e agir desta forma? No fundo, um tenista profissional prepara-se para vencer e essa preparação não é apenas, como já dissemos, um exercício individual. Trata-se de um processo extremamente demorado e complexo em que muitas pessoas estão, directa ou indirectamente, envolvidas, tantas vezes com enormes sacrifícios. Não é decerto exagerado declarar-se que a vida de um desportista profissional e daqueles que colaboram com ele se confunde amiúde com os resultados que o atleta obtém.
Depois, Wayne Arthurs poderia invocar sempre o carácter aleatório do próprio jogo ou todo um conjunto de outras justificações, pensando, imaginemos, nos termos seguintes: Tive sorte. A bola roçou tão levemente na minha raquete que ninguém reparou no sucedido. De resto, quem me garante que, numa situação rigorosamente inversa, o meu adversário não acabaria por aceitar também a decisão do árbitro? Esqueçamos isto e pensemos no próximo encontro, porque a vida continua. Insistimos neste aspecto: este seria o comportamento natural. Sobretudo no termo de um encontro longa e rijamente disputado. Na carreira de um tenista profissional o destino joga-se muitas vezes em momentos tão precisos e dramáticos como este. Por isso, repetimos a pergunta: de que poderia, em rigor, ser acusado Wayne Arthurs, caso tivesse cedido à sua inclinação imediata?
Adoptemos agora uma outra aproximação ao facto em análise. Poder-se-á perguntar o seguinte: não terá ganho rigorosamente nada Arthurs com a confissão pública da sua falha técnica, ao permitir que a bola acertasse na sua raquete? Como vimos, o tenista acabou por perder o encontro. E isso sucedeu apesar de todos os seus esforços visarem um desfecho contrário. Neste caso, verificou-se um categórico desmentido do adágio popular Deus escreve direito por linhas tortas, pois talvez fosse possível considerar que era mais justo que Arthurs tivesse, no fim do encontro, alcançado a vitória. Mas a verdade é que nem todas histórias têm moral e, por isso, Okun ganhou os dois pontos seguintes. Pois bem, Arthurs foi derrotado, perdeu o prémio e os pontos correspondentes à vitória anunciada pelo árbitro.
Contudo, insistamos: não terá Wayne Arthurs ganho nada em troca? Repare-se que temos estado sempre a falar do jogador que perdeu o encontro e nada temos dito acerca do seu adversário vencedor. Será sempre possível admitir a hipótese de que, a longo prazo, foi mais importante a recompensa simbólica do gesto de Arthurs do que o prémio monetário atribuído a Okun. Contudo, esta leitura, para além do seu evidente cinismo, apresenta duas dificuldades. Em primeiro lugar, quem entra numa competição tem como objectivo a vitória: qualquer atleta, ainda para mais um profissional, trocaria todos os troféus de fair-play pelo primeiro lugar na competição em que participa. Isto não significa desvalorizar os prémios de desportivismo, cujos méritos são sempre de assinalar: significa, isso sim, ver as coisas como elas são. Em segundo lugar, quem pode garantir a Arthurs que o seu gesto não passará desapercebido, tal como o impacte da bola na sua raquete o foi? Ao agir com a espontaneidade com que o fez, é difícil imaginar que Arthurs tenha feito o que fez com intenção egoísta. Arthurs realizou, pelo contrário, uma acção por dever. Ou, se preferirmos, não foi por ser profissional que Arthurs deturpou o [verdadeiro] espírito (...) do ténis. A circunstância de ser profissional e da sua acção ter manifestamente causado um prejuízo à sua carreira apenas engrandecem a nobreza do seu gesto. Mas, ao mesmo tempo, quem poderá negar que Arthurs prestou um inestimável serviço à causa do ténis e do desporto em geral?»