Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Olha que dois cromos...


A contra-ciclo das notícias tenísticas do dia, desde as péssimas, como a possibilidade (porventura merecida) de Agassi vir a perder a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996) pelos motivos já aludidos em anterior post, até às excelentes como a confirmação dada por João Lagos da presença de Federer na próxima edição do Estoril Open, volto a publicar algumas das minhas recordações pessoais como espectador da mais importante prova internacional que se disputa em Portugal. Devo dizer que os meus dias preferidos para me deslocar ao Jamor são a segunda, a terça ou a quarta, pois é nessa altura que podemos ver maior número de jogadores quer em competição (dedico especial atenção aos pares, como devem perceber pelo que aqui tenho escrito), quer sobretudo em treino. Durante a última edição do Estoril Open, assisti a um episódio que julgo ser bastante interessante. Caminhava eu na direcção do centralito quando me cruzei com uma figura conhecida. Um tipo careca com um rosto muito marcado por cicatrizes que parecem ser resultado de acne juvenil e com uma forte compleição física, apesar de não ser muito alto. De quem se tratava? Thierry Tulasne. Quem?!
Sim, Thierry Tulasne, um dos melhores jogadores franceses da sua geração, e que é agora o treinador de ... Gilles Simon.
Tulasne foi um jogador que prometeu muito enquanto júnior – os franceses apostavam mais nele do que em Leconte (têm a mesma idade, 46 anos) – mas a verdade é que foi menos bem sucedido na sua carreira profissional. Ainda assim, alcançou o 10º lugar do ranking ATP em 1986, com 23 anos portanto. Contudo, Leconte, o ritton (como era conhecido pelos jornalistas franceses devido ao seu feitio mimado) teve de facto mais sucesso: finalista de Roland Garros, onde levou um banho de ténis do Wilander, nº 5 ATP e sobretudo vencedor da Taça Davis ao lado de Noah e de Forget. Venceu ainda Roland Garros (1984) em pares fazendo equipa com o seu amigo Yannick. Tulasne era um típico jogador de terra batida (chegou a atingir as 1/2 finais de Monte Carlo) e as suas melhores pancadas eram a esquerda e a direita, sempre poderosas e muito liftadas. Contudo, julgo que não terá evoluído o suficiente nos outros sectores do jogo para justificar nas competições profissionais o nível evidenciado nos torneios juniores (nº 1 mundial e vencedor de vários torneios do Grad Slam neste escalão).
Pois bem era Tulasne quem descia as escadas que dão acesso ao centralito e, atrás dele, balouçando uma única raquete, quase com medo que dessem por ele, o top ten Gilles Simon (no início de 2009, era apenas o número 6 mundial, tendo agora descido para 12º lugar, muito por força de uma lesão num joelho). Estes dois tipos banais foram quase atropelados por uma multidão que, visivelmente, não os reconheceu. Ou, mesmo que os tenha reconhecido, não lhes deu a mínima importância. Não foi o meu caso, pois fiz meia volta e pus-me a perseguir aqueles dois cromos que pareciam ser uns daqueles frequentadores habituais de fim de semana do Estádio Nacional, com uma só raquete na mão e com t-shirts banalíssimas, mas adequadas para treinar (parecidas com as da foto, diga-se). Dirigiram-se para um dos courts secundários do Jamor onde, após esperarem pacientemente que o irmão e o sobrinho de Davydenko acabassem a sessão de treino com uma jovem tenista que, confesso, não faço a mais pequena ideia quem seja e após Tulasne ir resolver demoradamente o pequeno pormenor de se terem esquecido das bolas de treino, começaram finalmente treinar.
Primeira nota: não fizeram o mais pequeno exercício de aquecimento sem raquete (admito que tivessem feito isso no ginásio ou noutro sítio qualquer...), começando a trocar bolas em ritmo de mini-ténis e rapidamente passaram a bater do fundo de campo, com Simon a troçar das dificuldades que Tulasne manifestava ao cortar a sua esquerda que, quase invariavelmente, ou ficava na rede ou ia fora. Enfim, tudo se passava como se tratassem de dois amigos (e ao que parece são mesmo...) que praticam um ténis social.
Segunda nota: o absoluto toque de bola de Simon que, em meu entender, é um dos mais talentosos jogadores da actualidade. Excelente jogo de pés (é um falso lento, um pouco no estilo de outro grande e esquecido tenista, o checo Miroslav Mecir) e uma capacidade quase inacreditável de bater a bola na subida, retirando assim tempo de reacção ao adversário.
Terceira nota: a quase completa indiferença dos espectadores em relação a este treino, pois nas bancadas estava apenas eu e dois jornalistas franceses que trabalhavam numa reportagem sobre Simon para um canal televisivo francês. O cameraman chegou a explanar-me uma teoria - que não é totalmente absurda - segundo a qual, antes de Nadal inventar a sua técnica de direita, já o Tulasne terminava o movimento em cima da cabeça.
Enfim, no court estavam dois tipos que visivelmente fazem o que gostam (e são muitíssimo bem pagos por isso...) e que, para além disso, passam despercebidos entre as multidões. Em termos de popularidade, Simon é uma espécie de anti-Nadal ou de anti-Federer e, no entanto, já venceu os dois. Dos quatro membros da nova geração de mosqueteiros do ténis gaulês, e apesar do talento de Tsonga, da espectacularidade de Monfils e da fabulosa backhand de Gasquet (uma espécie de ritton dos dias de hoje), talvez Simon não seja o que tem menor qualidade e potencial(eu acho que não é!), mas é de certeza o menos referido e o menos falado. E, valha a verdade, este jogador low profile também não parece importar-se muito com isso.
Quanto a Tulasne, também parecia muito pouco aborrecido com a indiferença das multidões. Pelo contrário o seu estilo era como se pensasse «Isso é coisa para os Nadais e para os Federer, como noutros tempos foi para os Noahs e para os Lecontes... E ainda bem!»

Duas horas depois, Simon estava no Central para despachar, com a mesma naturalidade com que treina, o seu adversário daquele dia, o italiano Fognini, sempre sob o olhar atento do vieux Thierry.

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