
Hoje, o meu dia não começou bem. Ao comprar os jornais na tabacaria habitual, fiquei surpreendido com o destaque conferido por jornais desportivos e até pelos matutinos generalistas ao ténis. Porque será? Frederico Gil perdeu ontem, ao que parece sem oferecer grande resistência, com Radek Stepanek em Viena. Se o resultado tivesse sido o inverso, esse jogo teria com certeza honras de primeira página, apesar das (não) notícias que os diários futeboleiros dedicam ao não acontecimento da (suposta) permanência de Paulo Bento como treinador de futebol do Sporting. Mas, não, infelizmente não é do Gil que se fala em todos os jornais. O destaque oferecido ao ténis é uma espécie de presente envenenado. Tem a ver a publicação de excertos da biografia de Andre Agassi no jornal alemão Bild, apesar de o livro apenas chegar às bancas americanas no próximo dia 9. O que surge nesses excertos agora publicados?
Em 1997, quando Agassi, após ter vencido três títulos do Grand Slam - Wimbledon (1992), US Open (1994) e Australian (1995) - e um ano após ter arrebatado a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos (Atlanta), se arrastava pelo 141º lugar do ranking ATP e vivia ainda dificuldades no seu primeiro casamento com a actriz Brooke Shields, recorreu a um estimulante com o nome de Crystral Meth (metanfetamina), situação que foi registada num controle anti-doping positivo. O que agora Agassi revela também é que nessa altura escreveu uma carta à ATP onde, recorrendo deliberadamente a uma mentira, invocou a desculpa de ter bebido, sem o saber, por um copo de um amigo, esse sim toxicodependente e que assim o teria contaminado.
Devo dizer que estes factos agora vindos a público não constituem uma novidade absoluta. Recordo-me que o sueco Magnus Norman (salvo erro, mas não tenho agora tempo para ir confirmar esta minha impressão. Se verificar que se trata de uma imprecisão, prometo corrigi-la logo que possa), o actual treinador do sueco Robin Soderling, em tempos já terá insinuado que algo se teria passado com o Kid de Las Vegas e com o doping. Enfim, mas este aspecto não é o mais relevante. O que agora fica em causa é se a ATP foi ou não cúmplice desta desonestidade. É fácil de perceber que os danos económicos de uma suspensão por dopagem a Agassi têm um efeito infinitamente superior se comparados com o que aconteceu alguns anos depois, por exemplo, com o argentino Mariano Puerta que viu interrompida a sua carreira por dois anos e nunca mais voltou a atingir o nível anteriormente alcançado. Ora, Puerta invocou precisamente a mesma atenuante que Agassi apresentou na tal carta e isso de nada lhe serviu. Leio nos jornais de hoje que a ATP vem agora afirmar que nada poderia fazer para controlar a veracidade das declarações de Agassi. Mas ficará para sempre a suspeita de uma eventual conivência, quanto mais não seja por omissão...
No meio de todo este imbróglio, que irá com certeza ter desenvolvimentos nos próximos dias, registe-se a coragem de Agassi, hoje um exemplar pai de família (cf. video publicitário em http://www.youtube.com/watch?v=zPQJ-GoATxg) e marido de Steffi Graf, em assumir o seu lamentável erro. Contudo, e como já aqui disse há dias, a dopagem é um assunto extremamente complexo e delicado e, por isso, a ele terei de regressar em breve.
Mas a verdade é que o desporto, e o ténis em particular, sai mais uma vez maltratado duma história pouco edificante.
Por isso, hoje, quem gosta realmente de ténis não pode ter começado bem o dia...
