Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

A importância dos modelos na formação




Quando se fala em formação ou educação há por vezes o (mau) hábito de se pensar que é possível formar quem quer que seja sem que existam modelos. Claro que também não devemos confundir formação e formatação e, por isso, quando, entre o modelo e o formando não se verifica uma plena identidade, tal não significa necessariamente que a formação tenha fracassado. Mas a que vem esta conversa toda?






É que, do meu ponto de vista, um dos maiores problemas do ténis de formação (em Portugal e em especial na nossa região) consiste precisamente na falta de modelos. Há com certeza outras dificuldades e lacunas, e proximamente irei tentar falar de algumas delas, mas hoje quero centrar a minha atenção neste ponto específico. Imagine-se um jovem de tenra idade que inicia a sua prática tenística nos dias de hoje no Alentejo. Quais são os seus modelos? Ou seja, quem são os jogadores que podem servir de exemplo para que o pequeno tenista possa pensar: «Um dia hei-de jogar como aquele»?



Se repararmos no ranking de 2009, verificamos que um só jogador da Associação de Ténis do Alto Alentejo aparece na classificação nacional de seniores, o que significa que foi o único a jogar o número mínimo de três torneios oficiais. Trata-se do Zé Ferreira que surge no 103º lugar, mas que, em anos anteriores, obteve bem melhores prestações. E, de facto, o Zé constitui um óptimo exemplo e é sem dúvida uma mais valia para o futuro do nosso ténis (acaba de concluir com êxito o Curso de Treinadores de nível 2 , onde foi tirada esta foto), mas é uma solitária excepção que, como se costuma dizer, acaba por confirmar a regra.

Nos quadros dos (muito) poucos torneios de seniores que ainda se vão realizando nos principais clubes da região (Évora, Elvas, Montemor e Moura), descobrimos quase só jogadores veteranos e jogadores do grupo juvenil, o que, em si mesmo, não é negativo, mas resulta sobretudo de uma ausência dos praticantes do grupo senior. Como explicar esta aparente contradição que consiste em não haver muitos jogadores nas provas mais importantes?Não ignoro que este é um problema que se verifica também noutras modalidades desportivas, até porque o Alentejo tem grande dificuldade em fixar na região os jovens adultos que estão a começar a sua actividade profissional ou que entraram para a Universidade. Mas talvez aqui esteja uma boa pista para começar a resolver o problema: porque não levar a sério o Ténis como desporto universitário? Voltarei a este assunto proximamente.


Por outro lado, é sempre posível tapar o sol com a peneira e pensar que os modelos dos jovens tenistas são agora os Federer, os Nadal e os del Potro. Claro que sim. Mas há nesta forma de pensar um sério risco. Nós só os vemos a jogar na televisão, ao passo que ignoramos quase tudo acerca dos sacríficios que todos eles fizeram e continuam a fazer para alcançar o nível que atingiram. Mesmo em relação aos portugueses Frederico Gil, Michelle Brito e Rui Machado, que são hoje os novos ídolos dos mais miúdos, o que é sem dúvida muito positivo, eles vivem inevitavelmente afastados do ambiente dos jovens jogadores, apesar da sua excelente disponibilidade em eventos como o Estoril Open. Mas a verdade é que as crianças (e, aspecto importante e tantas vezes esquecido, os pais delas) ignoram quase tudo acerca do modo como os tenistas treinam, que tipo de alimentação seguem, como trabalham aspectos físicos e mentais do seu jogo, etc. Cria-se, assim,a ideia de que é fácil ser um jogador de elite e, por muito que isso custe, essa perspectiva é ilusória.



Urge, por isso, não perder para o ténis os agora adultos que aprenderam a jogar em crianças, passaram grande parte da adolescência dentro de um court e que, subitamente, guardaram as raquetes numa gaveta. Seria utópico imaginar que a disponibilidade destes tenistas, empenhados sobretudo na sua vida académica e preocupados em construir bases sólidas para o seu futuro profissional, é ainda a mesma do que quando tinham 14 ou 15 anos. Mas, na vida dos nossos clubes, esses jogadores, mesmo menos rodados e com outros interesses que não apenas o ténis, desempenham, a meu ver, um papel insubstituível. É que - volto à ideia inicial - não é possível formar quem quer que seja sem que existam modelos ou exemplos. E, quando os novos tenistas percebem que é muito difícil alcançar os lugares cimeiros do ranking mundial, é quase natural que surjam as desilusões e o abandono da competição. Se, pelo contrário, houver nos clubes bons jogadores que continuem a competir a um nível intermédio (nem profissionalismo, nem weekend players), é bem possível que não se verifiquem tantas desistências quando os tenistas atingem o escalão de seniores.

E só assim não seremos obrigados, em cada nova geração, a voltar à estaca zero e continuar a formar sem ter à nossa volta bons exemplos. Mais: só assim será possível elevar a nossa cultura tenística.

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